O NEGRO DESDE DENTRO
Guerreiro Ramos

(Em comemoração ao décimo aniversário do
Teatro Experimental do Negro)


Povos brancos, graças a uma conjunção de fatores históricos e naturais que não vem ao caso examinar aqui, vieram a imperar no planeta e, como seria conseqüente, forçaram, sobre aqueles que dominam, uma concepção do mundo feita à sua imagem e semelhança. Num país como o Brasil, colonizado por europeus, os valores mais prestigiados e, portanto, aceitos, são os do colonizador. Entre estes valores está o da brancura como símbolo do excelso, do sublime, do belo. Deus é concebido em branco e em branco são pensadas todas as perfeições. Na cor negra, ao contrário, está investida uma carga milenária de significados pejorativos. Em termos negros pensam-se todas as imperfeições. Se se reduzisse a axiologia do mundo ocidental a uma escala cromática, a cor negra representaria o pólo negativo. São infinitas as sugestões, nas mais sutis modalidades, que trabalham a consciência e a inconsciência do homem, desde a infância, no sentido de considerar, negativamente, a cor negra. O demônio, os espíritos maus, os entes humanos ou super-humanos, quando perversos, as criaturas e os bichos inferiores e malignos são, ordinariamente, representados em preto. Não têm conta as expressões correntes no comércio verbal em que se inculca no espírito humano a reserva contra a cor negra. "Destino negro", "lista negra", "câmbio negro", "missa negra", "alma negra", "sonho negro", "miséria negra", "caldo negro", "asa negra" e tantos outros ditos implicam sempre algo execrável. Ainda nas pessoas mais vigilantes contra o preconceito se surpreendem manifestações irrompidas do inconsciente em que ele aparece. Há dias, um líder católico, culto cidadão, anti-racista por princípio, num dos seus artigos, em que focalizava a momentosa tragédia culminada no suicídio Presidente Vargas, escrevia: "... pelas revelações tremendas do arquivo secreto do seu mais íntimo "guarda-costas", se verificou que o governo do Brasil possuía uma "éminence grise", que no caso era uma eminência negra! E que essa asa negra do presidente... escondia em suas fichas secretas o mais terrível libelo contra um regime de traficâncias e favoritismos". E mais adiante reporta-se aos "que acudiam a rojar-se aos pés da eminência negra, para dela conseguir as mais escusas intervenções". Os grifos são meus. Sirvo-me deles para marcar o sortilégio que a cor negra evoca no espírito deste escritor. Pois que se fosse branca a pessoa de que se trata - Gregório Fortunato, a elaboração do pensamento teria, evidentemente, tomado outras direções. Se o guarda-costas fosse claro, as aproximações seriam muito diversas. (Experimente o leitor traduzir para o branco o texto acima). O comentário do caso nos jornais e nas ruas se assinala de ângulos muito elucidativos da degradação da cor escura. De uma revista carioca transcrevo, por exemplo, este excerto. "Gregório quis saber se terá uma chance, um dia, de ser acareado. Disse-lhe eu que, na pior das hipóteses defrontar-se-á com o General no sumário de culpa, na Justiça comum. O preto pareceu ficar satisfeito. Esfregou as mãos... Deixei o quarto do negro e com ele caminhei para a sala... Perguntei quais eram seus amigos... o preto respondeu...". A cor humana aí perde o seu caráter de contingência ou de acidente para tornar-se verdadeiramente substância ou essência. Não adjetiva o crime. Substantiva-o.

Tais escritos são de autoria de pessoas brancas. Mas, na verdade, mesmo as pessoas escuras sofrem obnubilação em face da cor negra. Um dos mais dramáticos flagrantes disto é esta declaração de uma autoridade policial de cor negra: "... o preto, é verdade, é feio. Uma raça feia, de pele escura. Não agrada aos olhos, o negro é anti-estético, e a manifestação deste sentimento é tida como preconceito". Este, como a quase totalidade dos nossos patrícios de cor, é um cidadão aculturado ou assimilado, como diriam os que cultivam aquela típica ciência de exportação e de intuitos domesticadores - a antropologia. Mas pratiquemos um ato de suspensão da brancura e com este procedimento fenomenológico nos habilitaremos a alcançar a sua precariedade e, daí, a perceber a profunda alienação estética do homem de cor em sociedades europeizadas como a nossa. De repente se nos torna óbvio o nosso empedernimento pela brancura, se nos torna perceptível a venda por sobre os nossos olhos. É como se saíssemos do nevoeiro da brancura - o que nos parece olhá-la em sua precariedade social e histórica. E ainda que por um momento, para obter certa correção do nosso aparelho ótico, poderíamos dizer que das trevas da brancura - só nos poderemos libertar à luz da negrura.

Revelar a negrura em sua validade intrínseca, dissipar com o seu foco de luz a escuridão de que resultou a nossa total possessão pela brancura - é uma das tarefas heróicas da nossa época. Pior do que uma alma perversa, dizia Péguy, é uma alma habituada. Nossa perversão estética não nos alarma ainda porque a repartimos com muitos, com quase todos - é uma lesão comunitária que passou à categoria de normalidade desde que, praticamente, a ninguém deixa de atingir. A ninguém? Não. Uns poucos se iniciaram já na visão prístina da negrura e se postam com noviços diante dela, isto é, emancipados do precário fastígio da bracura. Purgado o nosso empedernimento pela brancura, estamos aptos a enxergar a beleza negra, uma beleza que vale por sua imanência e que exige ser aferida por critérios específicos. A beleza negra vale intrinsecamente e não enquanto alienada. Há, de fato, exemplares de corpos negros, masculinos e femininos, que valem por si mesmos, do ponto de vista estético, e não enquanto se alteram ou se aculturam para aproximar-se dos padrões da brancura. Há homens e mulheres trigueiros, de cabelos duros e de outras peculiariedades somáticas e antropométricas, nos quais é imperioso reconhecer a transparência de uma autêntica norma estética. A beleza negra não é, por ventura, uma criação cerebrina dos que as circunstâncias vestiram de pele escura, uma espécie de racionalização ou auto-justificação, mas um valor eterno, que vale ainda que não se o descubra. Não é uma reivindicação racial o que confere positividade à negrura: é uma verificação objetiva. É, assim, objetivamente, que pedimos para que a beleza negra o seu lugar no plano egrégio. Na atitude de quem associa a beleza negra ao meramente popular, folclórico, ingênuo ou exótico, há um preconceito larvar, uma inconsciente recusa de aceitá-la liberalmente. Eis porque é digna de repulsa toda atitude que, sob a forma de folclore, antropologia ou etnologia, reduz os valores negros ao plano do ingênuo ou do magístico. Num país de mestiços como o nosso, aceitar tal visão constitui um sintoma de auto-desprezo, ou de inconsciente subserviência aos padrões estéticos europeus.

A aculturação é tão insidiosa que ainda os espíritos mais generosos são por ela atingidos e, assim, domesticados pela brancura, quando imaginam o contrário. É o que parece flagrante na poesia de motivos negros. De ordinário, a negrura aí aparece subalterna, principalmente quando se focaliza a mulher, a qual se celebra, em regra, em termos puramente dionisíacos como se neles se esgotasse a sua especificidade.

E eu que era um menino puro
Não fui perder minha infância
No mangue daquela carne!
Dizia que era morena
Sabendo que era mulata
Dizia que era donzela
Nem por isso não era ela
Era uma moça que dava
Deixava... mesmo no mar
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Assim falou o nosso grande Vinicius de Morais. Falaram no mesmo tom, com a melhor das intenções, Mário de Andrade, Jorge de Lima, Nicolas Guillén e a legião de seus imitadores. Todavia, pondo a salvo o propósito generoso de tais poetas, nos refolhos de suas produções se surpreende, via de regra, o estereótipo: "Branca pra casar, negra pra cozinhar, mulata pra fornicar!" Labora pela ocultação da negrura toda esta pátina de associações pejorativas e de equívocos sinceros que vestem nosso espírito e que precisam ser purgados mediante a reiteração, em termos egrégios, dos valores negros. No Brasil, quem talvez mais perto chegou, em alguns momentos, da visão não domesticada da beleza negra foi Luiz Gama, no século passado, que escreveu versos como estes:

Como era linda, meu Deus!
Não tinha da neve a cor,
Mas no moreno semblante
Brilhavam raios de amor.

Ledo o rosto, o mais formoso
De trigueira coralina.
De anjo a boca, os lábios breves
Cor de pálida cravina.

Em carmim rubro engastados
Tinha os dentes cristalinos;
Doce a voz, qual nunca ouviram
Dúbios bardos matutinos.

..........................................................
Límpida alma - flor singela
Pelas brisas embalada.
Ao dormir d´alvas estrelas,
Ao nascer da madrugada.

Quis beijar-lhe as mãos divinas,
Afastou-nas - não consente;
A seus pés de rojo pus-me,
- Tanto pode o amor ardente!

Não são raros, aliás, os momentos em que Luiz Gama alcança a visão essencial, não contingente, da beleza negra. Referem-se-lhe, entre outras expressões como "as madeixas crespas, negras", "flor louçã", "formosa creoula", "Tétis negra", "cabeça envolvida em Núbia trunfa", "amores... lindos, cor da noite", "ebúrneo colo". Neste particular, Luiz Gama antecipou os movimentos revolucionários atuais, como o Teatro Experimental do Negro e o da negritude, dos intelectuais de formação francesa, em que se destacam Birago e David Diop e Léopold Sedar-Senghor (senegaleses), Gilbert Gratiant, Etienne Lero, Aimé Cesaire (Martinica), Guy Tirolien e Paul Niger (Guadalupe), Leon Laleau, Jacques Roumain, Jean-F. Brière (Haiti), Jean-Joseph Rabéarivelo, Jean Rabémananjara e Flavien Ranaivo (Madagascar). Todos estes poetas perceberam a beleza negra não desfigurada pela contingência imperialista como "forma... fixa na eternidade", no dizer de um deles. Léopold Sedar-Senghor, autor do poema Femme Noire, no qual assim se expressa:

Femme nue, femme noire
Vêtue de ta couleur qui est vie, de ta forme qui est beauté!
J´ai grandi à ton ombre, la douceur de tes mains bandait mês yeux.
Et voilà qu´au coeur de l´été et du midi, je te découvre terre promise du haut d´um haut col calcine
Et ta beauté me foudroie em plein coeur comme l´éclair d´um aigle.

Femme nue, femme obscure!
Fruit mûr à la chair ferme, sombres extases du vin bouche qui fais lyrique ma bouche.
Savane aux horizons purs, savane ui frémis aux caresses ferventes du Vent dest.
Tam-tam sculpté, tam-tam tendu qui grondes sous les doigts du Vainqueur.]Ta voix grave de contre-alto est lê chant spirituel de l´Aimée.

Femme nue, femme obscure!
Huile qui ne ride nul soufflé, huile calme aux flancs de l´athlète, aux flancs des princes du Mali,
Gazelle aux attaches célestes, les perles sont étoiles sur la nuit de ta peau,
Délices des jeux de l´esprit, les reflets de l´or rouge sur ta peau qui se moire.
Femme nue, femme noire!
Je chante ta beauté qui passé, forme que je fixe dans l´éternel
Avant que te destin jaloux ne te réduise em cendres pour nourrir lês racines de la vie.

Esta verdadeira revolução poética de nossos tempos se conjuga com todo um movimento universal de auto-afirmação dos povos de cor e tem, ela mesma, grande importância sociológica e política. Não deixam mais dúvida quanto a isto versos como os que se seguem, de Aimé Casaire:

...........................................................................
Et nous sommes debout maintenant,
Mon pays et moi, les cheveaux dans te
Vent, ma main petite maintenante dans
Son poing énorme et la force n´est pas
En nous, mais au-dessus de nous, dans
une voix qui vrille la nuit et l´audience
comme la pénétrance d´une guêpe
acopalyptique.
Et la voix prononce que l´Europe nous
A pendant des siècles gravés de mensonges
Et gonflés de pestilences,
Car il n´est point vrai que l´ouvre de
L´homme est finie
Que nous n´avons rien à faire au monde
Que nous parasations de londe
Qu´il suffit que nous nous mettions au pás du monde

Mais l´oeuvre de l´homme vient seulement
De commencer
Et it reste à l´homme à conquerir toute
Interdection immobilisée aux coins de
As ferveus
Et aucune race ne possède le monopole
De la bauté, de l´inteligence, de la
Force
Et il est place pour tous au rendez-vous
De la conquête et nous savons maintenant
Que le soleil tourne autor de
Notre terre éclairant la parcelle qu´a
Fixée notre volonté seule et que toute
Étoile chute lê ciel em terre à notre
Commandemente sans limite.

A rebelião estética de que se trata nestas páginas será um passo preliminar da rebelião total dos povos de cor para se tornarem sujeitos de seu próprio destino. Não se trata de um novo racismo, às avessas; às avessas daquele de que foram arautos Gobineau, Lapouge, Rosenberg et caterva. Trata-se de que, até hoje, o negro tem sido um mero objeto de versões de cuja elaboração não participa. Em todas estas versões se reflete perspectiva de que se exclui o negro como sujeito autêntico. Autenticidade - é a palavra que, por fim, deve ser escrita. Autenticidade para o negro significa idoneidade consigo próprio, adesão e lealdade ao repertório de suas contingências existenciais, imediatas e específicas. E na medida em que ele se exprima de modo autêntico, as versões oficiais a seu respeito se desmascaram, e se revelam nos seus intuitos mistificadores, deliberados ou equivocados. O negro na versão de seus "amigos profissionais". E dos que, mesmo de boa fé, o vêm de fora, é uma coisa. Outra - é o negro desde dentro.

(Revista Forma, nº 3, out. 1954)

Reproduzido do livro Teatro Experimental do Negro - Testemunhos (Rio de Janeiro: GRD, 1966), págs. 128-135.


 
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