No
2º Congresso de Cultura Negra das Américas (Panamá,
1980), Abdias apresenta sua tese do quilombismo.
Os
quilombos são uma das primeiras experiências de liberdade
nas Américas. Eles tinham uma estrutura comunitária
baseada em valores culturais africanos. Sua organização
política era democrática. Seu modelo econômico
era o contrário do modelo colonial.
Em
vez de produzir um item só para exportação
e depender da matriz imperial, tinham uma produção
agrícola diversificada que provia seu próprio sustento
e mantinham relações de troca e intercâmbio
com as populações circundantes.
O
quilombismo propõe esse legado como referência básica
de uma proposta de mobilização política da
população afrodescendente nas Américas com
base na sua própria experiência histórica
e cultural. Vai mais longe ainda, e articula uma proposta afro-brasileira
para o Estado nacional contemporâneo, um Brasil multiétnico
e pluricultural.
As
medidas e os princípios propostos estão no texto
A B C do Quilombismo.
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TRECHOS
DA INTRODUÇÃO AO LIVRO O QUILOMBISMO
Como
os conjuntos de políticas públicas articulados e
encaminhados ao Governo pelo movimento negro em dois momentos
posteriores - a Marcha Zumbi dos Palmares de 1995 e o processo
da 3ª Conferência - , o quilombismo é também
herdeiro de um movimento social que, já em 1945, apresentava
suas propostas à Assembléia Constituinte encarregada
de redemocratizar o país (Nascimento, 1982[1968]).
A
singularidade de O quilombismo está no fato de apresentar
uma proposta sócio-política para o Brasil, elaborada
desde o ponto de vista da população afrodescendente.
Num momento em que não se falava ainda em ações
afirmativas ou compensatórias, nem se cogitava de políticas
públicas voltadas à população negra,
o autor deste livro propunha a coletividade afro-brasileira como
ator e autor de um elenco de ações e de uma proposta
de organização nacional para o Brasil. Assim, sustentava
e concretizava a afirmação de que a questão
racial é eminentemente uma questão nacional.
O
quilombismo antecipa conceitos atuais como multiculturalismo,
cujo conteúdo está previsto nos princípios
de "igualitarismo democrático (...) compreendido no
tocante a sexo, sociedade, religião, política, justiça,
educação, cultura, condição racial,
situação econômica, enfim, todas as expressões
da vida em sociedade;" "igual tratamento de respeito
e garantias de culto" para todas as religiões; ensino
da história da África, das culturas, civilizações
e artes africanas nas escolas.
O
ambientalismo também se faz presente, no princípio
que "favorece todas as formas de melhoramento ambiental que
possam assegurar uma vida saudável para as crianças,
as mulheres, os homens, os animais, as criaturas do mar, as plantas,
as selvas, as pedras e todas as manifestações da
natureza".
A propriedade coletiva da terra, o direito ao trabalho digno e
remunerado, a prioridade para a criança, e a possibilidade
da "transformação das relações
de produção e da sociedade de modo geral por meios
não violentos e democráticos" estão
entre os princípios humanistas do quilombismo.
O
texto antecipa, também, a mais recente inovação
na abordagem das relações raciais, que parte do
aspecto relacional sugerido pela ótica de gênero.
A categoria "gênero" implica relação
entre homem e mulher, assim deslocando o foco da tradicional "questão
da mulher".
Da
mesma forma, para compreender a questão racial é
preciso focalizar tanto o privilégio desfrutado pelo branco
como as desvantagens sofridas por negros. Já na década
dos 1940 e 1950, Abdias e outros intelectuais negros, entre eles
o sociólogo Guerreiro Ramos e o advogado Aguinaldo Camargo,
vinham criticando o enfoque tradicional brasileiro sobre "o
problema do negro".
Atribuem
ao escritor Fernando Góes a sugestão, feita numa
atitude de fina ironia, de se realizar um Congresso dos negros
para estudar o branco. Essa sugestão e suas implicações
são retomadas, e dotadas de semelhante carga de ironia
crítica, no texto de O quilombismo. Trata-se de mais uma
afirmação do racismo como fenômeno relacional
mais amplo, profundo e complexo que aquele denotado pela constatação
das chamadas "desigualdades raciais".
Nesta obra, merecem um capítulo à parte, além
de serem focalizadas em todos os textos, as peripécias
específicas da mulher negra, que envolvem aspectos múltiplos
e complementares. A questão racial e a de gênero
se tecem juntos numa teia que hoje se denomina "interseccionalidade",
conceito de certa maneira antecipado no conjunto das obras do
autor ao integrar a mulher negra como prioridade temática
de sua análise. Mais de uma década antes de instituir-se
a reserva de vagas para mulheres nas listas de candidaturas a
cargos políticos, constava entre os princípios do
quilombismo o seguinte:
12.
Em todos os órgãos do Poder do Estado Quilombista
- Legislativo, Executivo e Judiciário - a metade dos cargos
de confiança, dos cargos eletivos, ou dos cargos por nomeação,
deverão, por imperativo constitucional, ser ocupados por
mulheres. O mesmo se aplica a todo e qualquer setor ou instituição
de serviço público.
O
conjunto de textos deste volume vem contribuir para o registro
histórico de aspectos pouco divulgados do pan-africanismo,
um dos mais importantes fenômenos do século XX. Demonstra
também uma continuidade e coerência com assuntos
eminentemente contemporâneos, pois reconhecemos nestes ensaios,
em particular no ABC e nos Princípios do Quilombismo, a
formulação de idéias e polêmicas ainda
hoje emergentes.
A atualidade de O quilombismo não se esgota nos temas que
apontamos. Creio que cada leitor irá vislumbrar, para além
dessas questões, outras talvez mais interessantes.
Rio de Janeiro, outubro de 2001
Elisa Larkin Nascimento
BIBLIOGRAFIA
MOORE, Carlos (2002). Abdias do Nascimento e o surgimento de um
pan-africanismo contemporâneo global. In: Nascimento, Abdias
do. O Brasil na mira do pan-africanismo. Salvador: CEAO/ EDUFBA,.
NASCIMENTO,
Abdias do (2002). O Brasil na mira do pan-africanismo. Salvador:
CEAO/ EDUFBA.
__
. (1982[1968]). O negro revoltado, 2ª ed. Rio de Janeiro:
Nova Fronteira. [1ª ed. Rio de Janeiro: GRD].
__ . (1966). Carta aberta a Dacar. Tempo brasileiro, v. 4, n.
9/10, 2. Trim, 1966. [Diário do Congresso Nacional, suplemento,
20 abr., p. 15-17, lida na Câmara dos Deputados pelo então
deputado Hamilton Nogueira.] In: Nascimento, Abdias do. O Brasil
na mira do pan-africanismo. Salvador: CEAO/ EDUFBA, 2002.
Trechos do Prefácio do livro O Quilombismo, 2ª ed. (Brasília/
Rio: Fundação Cultural Palmares/ OR Editora, 2002).
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ABC do Quilombismo
Na
trajetória histórica que esquematizamos nestas páginas,
o quilombismo tem nos fornecido várias lições.
Tentaremos resumi-las num ABC fundamental que nos ensina que:
a)
Autoritarismo de quase 500 anos já é bastante. Não
podemos, não
devemos e não queremos tolerá-lo por mais tempo.
Sabemos de experiência própria que uma das práticas
desse autoritarismo é o desrespeito brutal da polícia
às famílias negras. Toda a sorte de arbitrariedade
policial se acha fixada nas batidas que ela faz rotineiramente
para manter aterrorizada e desmoralizada a comunidade afro-brasileira.
Assim fica confirmada, diante dos olhos dos próprios negros,
sua condição de impotência e inferioridade,
já que são incapazes até mesmo de se autodefenderem
ou de proteger sua família e os membros de sua respectiva
comunidade. Trata-se de um estado de humilhação
permanente.
b)
Banto denomina-se um povo ao qual pertenceram os primeiros
africanos escravizados que vieram para o Brasil de países
que hoje se chamam Angola, Congo, Zaire, Moçambique e outros.
Foram os bantos os primeiros quilombolas a enfrentar em terras
brasileiras o poder militar do branco escravizador.
c)
Cuidar em organizar a nossa luta por nós mesmos é
um imperativo
da nossa sobrevivência como um povo. Devemos por isso ter
muito cuidado ao fazer alianças com outras forças
políticas, sejam as ditas revolucionárias, reformistas,
radicais, progressistas ou liberais. Toda e qualquer aliança
deve obedecer a um interesse tático ou estratégico,
e o negro precisa obrigatoriamente ter poder de decisão,
a fim de não permitir que a comunidade negra seja manipulada
por interesses de causas alheias à sua própria.
d)
Devemos ampliar sempre a nossa frente de luta, tendo em vista:
1)
os objetivos mais distantes da transformação radical
das estruturas sócio-econômicas e culturais da sociedade
brasileira; 2) os interesses táticos imediatos. Nestes
últimos se inclui o voto do analfabeto e a anistia aos
prisioneiros políticos negros. Os prisioneiros políticos
negros são aqueles que são maliciosamente fichados
pela polícia como desocupados, vadios, malandros, marginais,
e cujos lares são freqüentemente invadidos.
e)
Ewe ou gêge, povo africano de Gana, Togo e Daomé
(Benin); milhões de ewes foram escravizados no Brasil.
Eles são parte do nosso povo e da nossa cultura afro-brasileira.
Ejetar
o supremacismo branco do nosso meio é um dever de todo
democrata. Devemos ter sempre presente que o racismo, isto é,
supremacismo branco, preconceito de cor e discriminação
racial, compõem o fator raça, a primeira contradição
para a população de origem africana na sociedade
brasileira. (Aviso aos intrigantes, aos maliciosos, aos apressados
em julgar: o vocábulo raça, no sentido aqui empregado,
se define somente em termos de história e cultura, e não
em pureza biológica).
f)
Formar os quadros do quilombismo é tão importante
quanto a mobilização e a organização
da comunidade negra.
g)
Garantir ao povo trabalhador negro o seu lugar na hierarquia de
Poder e Decisão, mantendo a sua integridade etno-cultural,
é a motivação básica do quilombismo.
h)
Humilhados que fomos e somos todos os negro-africanos, com todos
devemos manter íntimo contato. Também com organizações
africanas independentes, tanto da diáspora como do continente.
São importantes e necessárias as relações
com órgãos e instituições internacionais
de Direitos Humanos, tais como a ONU e a UNESCO, de onde poderemos
receber apoio em casos de repressão. Nunca esquecer que
sempre estivemos sob a violência da oligarquia latifundiária,
industrial-financeira ou militar.
i)
Infalível como um fenômeno da natureza será
a perseguição do poder branco ao quilombismo. Está
na lógica inflexível do racismo brasileiro jamais
permitir qualquer movimento libertário dos negros majoritários.
Nossa existência física é uma realidade que
jamais pôde ser obliterada, nem mesmo pelo Instituto Brasileiro
de Geografia e Estatística (IBGE) ao manipular os dados
censitários, nos quais erradicou o fator racial e de cor
dos cômputos demográficos. E quanto a nosso peso
político? Simplesmente não existe. Desde a proclamação
da República, a exclusão do voto ao analfabeto significa
na prática a exclusão da população
negra do processo político do país.
j)
Jamais as organizações políticas dos afro-brasileiros
deverão permitir o acesso aos brancos não-quilombistas
a posições com autoridade para obstruir a ação
ou influenciar as tomadas de posição teóricas
e práticas em face da luta.
k)
Kimbundo, língua do povo banto, veio para o Brasil com
os escravos procedentes da África meridional. Essa língua
exerceu notável influência sobre o português
falado neste país.
l)
Livrar o Brasil da industrialização artificial,
tipo "milagre econômico", está nas metas
do quilombismo. Neste esquema de industrialização,
o negro é explorado a um tempo pelo capitalista industrial
e pela classe trabalhadora classificada ou "qualificada".
Como trabalhador "desqualificado" ou sem classe, ele
é duplamente vítima: da raça (branca) e da
classe (trabalhadora "qualificada" e/ou burguesia de
qualquer raça). O quilombismo advoga para o Brasil um conhecimento
científico e técnico que possibilite a genuína
industrialização que represente um novo avanço
de autonomia nacional. O quilombismo não aceita que se
entregue a nossa reserva mineral e a nossa economia às
corporações monopolistas internacionais, porém
tampouco defende os interesses de uma burguesia nacional. O negro-africano
foi o primeiro e o principal artífice da formação
econômica do País e a riqueza nacional pertence a
ele e a todo o povo brasileiro que a produz.
m)
Mancha branca é o que significa a imposição
miscigenadora do branco, implícita na ideologia do branqueamento,
na política imigratória, no mito da "democracia
racial". Tudo não passa de racionalização
do supremacismo branco e do estupro histórico e atual que
se pratica contra a mulher negra.
n)
Nada de mais confusões: se no Brasil efetivamente houvesse
igualdade de tratamento, de oportunidades, de respeito, de poder
político e econômico; se o encontro entre pessoas
de raças diferentes ocorresse espontâneo e livre
da pressão do poder e prestígio sócio-econômico
do branco; se não houvesse outros condicionamentos repressivos
de caráter moral, estético e cultural, a miscigenação
seria um acontecimento positivo, capaz de enriquecer o brasileiro,
a sociedade, a cultura e a humanidade das pessoas.
o)
Obstar o ensinamento e a prática genocidas do supremacismo
branco é um fator substantivo do quilombismo.
p)
Poder quilombista quer dizer: a Raça Negra no Poder. Os
descendentes de africanos somam a maioria da nossa população.
Portanto, o Poder Negro será um poder democrático.
(Reitero aqui a advertência aos intrigantes, aos maliciosos,
aos ignorantes, aos racistas: neste livro a palavra raça
tem exclusiva acepção histórico-cultural.
Raça biologicamente pura não existe e nunca existiu).
q)
Quebrar a eficácia de certos slogans que atravessam a nossa
ação contra o racismo, como aquele da luta única
de todos os trabalhadores, de todo o povo ou de todos os oprimidos,
é um dever do quilombista. Os privilégios raciais
do branco em detrimento do negro constituem uma ideologia que
vem desde o mundo antigo. A pregação da luta "única"
ou "unida" não passa de outra face do desprezo
que nos votam, já que não respeitam a nossa identidade
e nem a especificidade do nosso problema e do nosso esforço
em resolvê-lo.
r)
Raça: acreditamos que todos os seres humanos pertencem
à mesma espécie. Para o quilombismo, raça
significa um grupo humano que possui, relativamente, idênticas
características somáticas, resultantes de um complexo
de fatores históricos e ambientais. Tanto a aparência
física, como igualmente os traços psicológicos,
de personalidade, de caráter e emotividade, sofrem a influência
daquele complexo de fatores onde se somam e se complementam a
genética, a sociedade, a cultura, o meio geográfico,
a história. O cruzamento de diferentes grupos raciais,
ou de pessoas de identidade racial diversas, está na linha
dos mais legítimos interesses de sobrevivência da
espécie humana.
Racismo: é a crença na inerente superioridade de
uma raça sobre outra. Tal superioridade é concebida
tanto no aspecto biológico, como na dimensão psico-sócio-cultural.
Esta é a dimensão usualmente negligenciada ou omitida
nas definições tradicionais do racismo. A elaboração
teórico-científica produzida pela cultura branco-européia
justificando a escravização e a inferiorização
dos povos africanos constitui o exemplo eminente do racismo sem
precedentes na história da humanidade.
Racismo é a primeira contradição social no
caminho do negro. A esta se juntam outras, como a contradição
de classes e de sexo.
s)
Swahili é uma língua de origem banta, influenciada
por outros idiomas, especialmente o árabe. Atualmente,
o swahili é falado por mais de 20 milhões de africanos
da Tanzânia, do Quênia, de Uganda, do Burundi, do
Zaire, e de outros países. Os afro-brasileiros necessitam
aprendê-la com urgência.
Slogan do poder público e da sociedade dominante, no Brasil,
condenando reiterada e indignadamente o racismo, se tornou um
recurso eficaz encobrindo a operação racista e discriminatória
sistemática, de um lado, e de outro lado servindo como
uma arma apontada contra nós com a finalidade de atemorizar-nos,
amortecendo ou impedindo que um movimento coeso do povo afro-brasileiro
obtenha a sua total libertação.
t)
Todo negro ou mulato (afro-brasileiro) que aceita a "democracia
racial" como uma realidade, e a miscigenação
na forma vigente como positiva, está traindo a si mesmo,
e se considerando um ser inferior.
u)
Unanimidade é algo impossível no campo social e
político. Não devemos perder o nosso tempo e a nossa
energia com as críticas vindas de fora do movimento quilombista.
Temos de nos preocupar e criticar a nós próprios
e às nossas organizações, no sentido de ampliar
a nossa consciência negra e quilombista rumo ao objetivo
final: a ascensão do povo afro-brasileiro ao Poder.
v)
Vênia é o que não precisamos pedir às
classes dominantes para reconquistarmos os frutos do trabalho
realizado pelos nossos ancestrais africanos no Brasil. Nem devemos
aceitar ou assumir certas definições, "científicas"
ou não, que pretendem situar o comunalismo africano e o
ujamaaísmo como simples formas arcaicas de organização
econômica e/ou social. Esta é outra arrogância
de fundo eurocentrista que implicitamente nega às instituições
nascidas na realidade histórica da África a capacidade
intrínseca de desenvolvimento autônomo relativo.
Nega a tais instituições a possibilidade de progresso
e atualização, admitindo que a ocupação
colonizadora do Continente Africano pelos europeus determinasse
o concomitante desaparecimento dos valores, princípios
e instituições africanas. Estas corporificariam
formas não-dinâmicas, exclusivamente quietistas e
imobilizadas. Tal visão petrificada da África e
de suas culturas é uma ficção puramente cerebral.
O quilombismo pretende resgatar dessa definição
negativista o sentido de organização sócio-econômica
concebido para servir à existência humana; organização
que existiu na África e que os africanos escravizados trouxeram
e praticaram no Brasil. A sociedade brasileira contemporânea
pode se beneficiar com o projeto do quilombismo, uma alternativa
nacional que se oferece em substituição ao sistema
desumano do capitalismo.
x)
Xingar não basta. Precisamos é de mobilização
e de organização da gente negra, e de uma luta enérgica,
sem pausa e sem descanso, contra as destituições
que nos atingem. Até que ponto vamos assistir impotentes
à cruel exterminação dos nossos irmãos
e irmãs afro-brasileiros, principalmente das crianças
negras deste país?
y)
Yorubás (Nagô) somos também em nossa africanidade
brasileira. Os iorubás são parte integrante do nosso
povo, da nossa cultura, da nossa religião, da nossa luta
e do nosso futuro.
z)
Zumbi: fundador do quilombismo.
Propostas de ação para o Governo Brasileiro
O programa de ação quilombista incorpora, devidamente
atualizadas, as seguintes propostas apresentadas por este autor
ao Colóquio do 2º Festival Mundial de Artes e Culturas
Negras e Africanas (Festac), realizado em Lagos, Nigéria,
em 1977 (ver Nascimento, Abdias, O Brasil na Mira do Pan-Africanismo,
Salvador: CEAO/ EdUFBA, 2002). Naquela ocasião, o autor
propôs ao Colóquio recomendar que o Governo Brasileiro
1)
permita e estimule a livre e aberta discussão dos problemas
dos descendentes de africanos no país; e que encoraje e
financie pesquisas sobre a posição econômica,
social e cultural ocupada pelos afro-brasileiros dentro da sociedade
brasileira, em todos os níveis;
2) localize e publique documentos e outros fatos e informações
possivelmente existentes em arquivos privados, cartórios,
arquivos de câmara municipal de velhas cidades do interior,
referentes ao tráfico negreiro, à escravidão
e à abolição; em resumo, qualquer dado que
possa ajudar a esclarecer e aprofundar a compreensão da
experiência do africano escravizado e de seus descendentes;
3) inclua quesitos sobre raça ou etnia em todos os futuros
censos demográficos; que em toda informação
que dito governo divulgue, tanto para consumo doméstico
como internacional a respeito da composição demográfica
do país, não se omita o aspecto da origem racial
/ étnica;
4) inclua um ativo e compulsório currículo sobre
a história e as culturas dos povos africanos, tanto aqueles
do continente como os da diáspora; tal currículo
deve abranger todos os níveis do sistema educativo: elementar,
médio e superior;
5) tome medidas ativas para promover o ensino e o uso prático
de línguas africanas, especialmente as línguas ki-swahili
e iorubá; o mesmo em relação aos sistemas
religiosos africanos e seus fundamentos artísticos; que
o dito governo promova válidos programas de intercâmbio
cultural com as nações africanas;
6) estude e formule compensações aos afro-brasileiros
pelos séculos de escravização criminosa e
decênios de discriminação racial depois da
abolição; para esse fim deverá drenar recursos
financeiros e outros, compulsoriamente originados da Agricultura,
do Comércio e da Indústria, setores que historicamente
têm sido beneficiados com a exploração do
povo negro. Tais recursos constituirão um fundo destinado
à construção de moradias, que satisfaçam
às exigências da condição humana, em
substituição às atuais habitações
segregadas onde vive a maioria dos afro-brasileiros: favelas,
cortiços, mocambos, porões, cabeças-de-porco,
e assim por diante. O fundo sustentaria também a distribuição
de terras no interior do país para os negros engajados
na produção agropecuária;
7) remova os objetos da arte afro-brasileira assim como os de
sentido ritual encontrados hoje em instituições
de polícia, de psiquiatria, história e etnografia;
e que o dito governo estabeleça museus de arte com finalidade
dinâmica e pedagógica de valorização
e respeito devidos à cultura afro-brasileira; de preferência,
tais museus se localizariam nos estados com significativa população
negra, tais como Bahia, Maranhão, Pernambuco, Alagoas,
Minas Gerais, Rio de Janeiro, São Paulo, Sergipe, Rio Grande
do Sul;
8) conceda efetivo apoio, material e financeiro, à existentes
e futuras associações afro-brasileiras com finalidade
de pesquisa, informação e divulgação
nos setores de educação, arte, cultura e posição
sócio-econômica da população afro-brasileira.
9) tome medidas rigorosas e apropriadas ao efetivo cumprimento
da lei Afonso Arinos, fazendo cessar o papel burlesco que tem
desempenhado até agora;
10) tome ativas providências, ajuste as realidades do país,
para que de nenhuma forma se permita ou possibilite a discriminação
racial ou de cor no emprego, garantindo a igualdade de oportunidade
que atualmente inexiste entre brancos, negros e outras nuanças
étnicas.
11) exerça seu poder através de uma justa política
de redistribuição da renda, tornando impraticável
que, por causa da profunda desigualdade econômica imperante,
o afro-brasileiro seja discriminado, embora sutil e indiretamente,
em qualquer nível do sistema educativo, seja o elementar,
o médio ou o universitário.
12) estimule ativamente o ingresso de negros no Instituto Rio
Branco, órgão de formação de diplomatas
pertencente ao Ministério de Relações Exteriores.
13) nomeie negros para o cargo de embaixador e diplomata para
as Nações Unidas e junto aos Governos de outros
países do mundo.
14) estimule a formação de negros como oficiais
superiores das Forças Armadas (Exército, Marinha
e Aeronáutica) com promoções no serviço
ativo até os postos de general, almirante, brigadeiro e
marechal.
15) nomeie negros para os altos escalões do Governo Federal
em seus vários ministérios e outras repartições
do Executivo, incluindo órgãos superiores como o
Conselho Federal de Cultura, o Conselho Federal de Educação,
o Conselho de Segurança Nacional, o Tribunal de Contas.
16) estimule e encoraja a formação e o desenvolvimento
de uma liderança política negra, representando os
interesses específicos da população afro-brasileira
no Senado Federal, na Câmara dos Deputados, nas Assembléias
Legislativas Estaduais e nas Câmaras Municipais; que o dito
Governo nomeie negros para os cargos de juizes estaduais e federais,
inclusive para o Supremo Tribunal Federal, Superior Tribunal Eleitoral,
Superior Tribunal Militar, Superior Tribunal do Trabalho e o Tribunal
Federal de Recursos.
17) concretize sua tão proclamada "amizade" com
a África independente e sua tão freqüentemente
manifestada posição anticolonialista, dando efetivo
apoio diplomático e material aos legítimos movimentos
de libertação nacional de Zimbabwe, Namíbia
e África do Sul.
Alguns princípios e propósitos do quilombismo
1.
O Quilombismo é um movimento político dos negros
brasileiros, objetivando a implantação de um Estado
Nacional Quilombista, inspirado no modelo da República
dos Palmares, no século XVI, e em outros quilombos que
existiram e existem no País.
2.
O Estado Nacional Quilombista tem sua base numa sociedade livre,
justa, igualitária e soberana. O igualitarismo democrática
quilombista é compreendido no tocante a sexo, sociedade,
religião, política, justiça, educação,
cultura, condição racial, situação
econômica, enfim, todas as expressões da vida em
sociedade. O mesmo igualitarismo se aplica a todos os níveis
do Poder e de instituições públicas e privadas.
3.
A finalidade básica do Estado Nacional Quilombista é
a de promover a felicidade do ser humano. Para atingir sua finalidade,
o quilombismo acredita numa economia de base comunitário-cooperativista
no setor da produção, da distribuição
e da divisão dos resultados do trabalho coletivo.
4.
O quilombismo considera a terra uma propriedade nacional de uso
coletivo. As fábricas e outras instalações
industriais, assim como todos os bens e instrumentos de produção,
da mesma forma que a terra, são de propriedade e uso coletivo
da sociedade. Os trabalhadores rurais ou camponeses trabalham
a terra e são eles próprios os dirigentes das instituições
agropecuárias. Os operários da indústria
e os trabalhadores de modo geral são os produtores dos
objetos industriais e os únicos responsáveis pela
orientação e gerência de suas respectivas
unidades de produção.
5. No quilombismo o trabalho é um direito e uma obrigação
social, e os trabalhadores, que criam a riqueza agrícola
e industrial da sociedade quilombista, são os únicos
donos do produto do seu trabalho.
6. A criança negra tem sido a vítima predileta e
indefesa da miséria material e moral imposta à comunidade
afro-brasileira. Por isso, ela constitui a preocupação
urgente e prioritária do quilombismo. Atendimento pré-natal,
amparo à maternidade, creches, alimentação
adequada, moradia higiênica e humana, são alguns
dos itens relacionados à criança negra que figuram
no programa de ação do movimento quilombista.
7. A educação e o ensino em todos os graus - elementar,
médio e superior - serão completamente gratuitos
e abertos sem distinção a todos os membros da sociedade
quilombista. A história da África, das culturas,
das civilizações e das artes africanas terão
um lugar eminente nos currículos escolares. Criar uma Universidade
Afro-Brasileira é uma necessidade dentro do programa quilombista.
8. Visando o quilombismo a fundação de uma sociedade
criativa, ele procurará estimular todas as potencialidades
do ser humano e sua plena realização. Combater o
embrutecimento causado pelo hábito, pela miséria,
pela mecanização da existência e pela burocratização
das relações humanas e sociais, é um ponto
fundamental. As artes em geral ocuparão um espaço
básico no sistema educativo e no contexto das atividades
sociais.
9. No quilombismo não haverá religiões e
religiões populares, isto é, religião da
elite e religiões do povo. Todas as religiões merecem
igual tratamento de respeito e de garantias de culto.
10. O Estado quilombista proíbe a existência de um
aparato burocrático estatal que perturbe ou interfira com
a mobilidade vertical das classes trabalhadoras e marginalizadas
em relação direta com os dirigentes. Na relação
dialética dos membros da sociedade com as suas instituições
repousa o sentido progressista e dinâmico do quilombismo.
11. A revolução quilombista é fundamentalmente
anti-racista, anticapitalista, antilatifundiária, antiimperialista
e antineocolonialista.
12. Em todos os órgãos do Poder do Estado Quilombista
- Legislativo, Executivo e Judiciário - a metade dos cargos
de confiança, dos cargos eletivos, ou dos cargos por nomeação,
deverão, por imperativo constitucional, ser ocupados por
mulheres. O mesmo se aplica a todo e qualquer setor ou instituição
de serviço público.
13. O quilombismo considera a transformação das
relações de produção, e da sociedade
de modo geral, por meios não-violentos e democráticos,
uma via possível.
14. É matéria urgente para o quilombismo a organização
de uma instituição econômico-financeira em
moldes cooperativos, capaz de assegurar a manutenção
e a expansão da luta quilombista a salvo das interferências
controladoras do paternalismo ou das pressões do Poder
econômico.
15. O quilombismo essencialmente é um defensor da existência
humana e, como tal, ele se coloca contra a poluição
ecológica e favorece todas as formas de melhoramento ambiental
que possam assegurar uma vida saudável para as crianças,
as mulheres e os homens, os animais, as criaturas do mar, as plantas,
as selvas, as pedras e todas as manifestações da
natureza.
16. O Brasil é signatário da Convenção
Internacional para a Eliminação de Todas as Formas
de Discriminação Racial, adotada pela Assembléia
Geral das Nações Unidas em 1965. No sentido de cooperar
para a concretização de objetivos tão elevados
e generosos, e tendo em vista o artigo 9, números 1 e 2
da referida Convenção, o quilombismo contribuirá
para a pesquisa e a elaboração de um relatório
ou dossiê bianual, abrangendo todos os fatos relativos à
discriminação racial ocorridos no País, a
fim de auxiliar os trabalhos do Comitê para a Eliminação
da Discriminação Racial das Nações
Unidas.
Reproduzido
do livro O Quilombismo, 2ª ed. (Brasília/Rio: Fundação
Cultural Palmares/ OR Editor, 2002), págs. 278-290.
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QUILOMBISMO:
um conceito científico emergente do processo histórico-cultural
da população afro-brasileira
Uma
proposta do autor aos seus irmãos afrodescendentes no Brasil
e nas Américas, apresentada em trabalho apresentado ao
2º Congresso de Cultura Negra das Américas, Panamá,
1980.
...uma
verdadeira revolução racial democrática,
em nossa era, só pode dar-se sob uma condição:
o negro e o mulato precisam torna-se o antibranco, para encarnarem
o mais puro radicalismo democrático e mostrar aos brancos
o verdadeiro sentido da revolução democrática
da personalidade, da sociedade e da cultura.
-
Florestan Fernandes
O Negro no Mundo dos Brancos
Memória: a antigüidade do saber negro-africano
Numa passagem anterior do texto deste livro fizemos menção
à urgente necessidade do negro brasileiro em recuperar
a sua memória. Esta tem sido agredida sistematicamente
pela estrutura de poder e dominação há quase
500 anos. Semelhante fato tem acontecido com a memória
do negro-africano, vítima, quando não de graves
distorções, da mais crassa negação
do seu passado histórico.
A memória dos afro-brasileiros, muito ao contrário
do que afirmam aqueles historiadores convencionais de visão
curta e superficial entendimento, não se inicia com o tráfico
escravo e nem nos primórdios da escravidão dos africanos,
no século XV. Em nosso país, a elite dominante sempre
desenvolveu esforços para evitar ou impedir que o negro
brasileiro, após a chamada abolição, pudesse
assumir suas raízes étnicas, históricas e
culturais, desta forma seccionando-o do seu tronco familial africano.
A não ser em função do recente interesse
do expansionismo industrial, o Brasil como norma tradicional ignorou
o continente africano. Voltou suas costas à África
logo que não conseguiu mais burlar a proibição
do comércio da carne africana imposta pela Inglaterra aí
por volta de 1850. A imigração maciça de
europeus ocorreu daí a mais alguns anos, e as classes dominantes
enfatizam sua intenção e ação no sentido
de arrancar da mente e do coração dos descendentes
escravos a imagem da África como um a lembrança
positiva de nação, de pátria, de terra nativa;
nunca em nosso sistema educativo se ensinou qualquer disciplina
que revelasse algum apreço ou respeito às culturas,
artes, línguas e religiões de origem africana. E
o contato físico do afro-brasileiro com os seus irmãos
no continente e na diáspora sempre foi impedido ou dificultado,
entre outros obstáculos, pela carência de meios econômicos
que permitissem ao negro se locomover e viajar fora do país.
Porém, nenhum desses empecilhos teve o poder de obliterar
completamente do nosso espírito e da nossa lembrança
a presença viva da Mãe África.
As diversas estratégias e os expedientes que se utilizam
contra a memória do negro-africano têm sofrido, ultimamente,
profunda erosão e irreparável descrédito.
Este trabalho é fruto da dedicação e competência
de alguns africanos, a um tempo estudiosos, pesquisadores, cientistas,
filósofos, e criadores de literatura e arte, pessoas do
continente africano e da diáspora africana. Cheikh Anta
Diop, do Senegal; Chancellor Williams, dos Estados Unidos; Ivan
Van Sertima e George M. James, da Guiana; Yosef Ben-Jochannam,
da Etiópia; Theophile Obenga, do Congo-Brazzaville; Wole
Soyinka e Wande Abimbola, da Nigéria, figuram entre os
muitos que estão ativos, produzindo obras fundamentais
para a África contemporânea e futura. Em campos diferentes,
e sob perspectivas diversas, o esforço desses eminentes
irmãos africanos se canaliza rumo a exorcizar as falsidades,
distorções e negações que há
tanto tempo se vêm tecendo com o intuito de velar ou apagar
a memória do saber, do conhecimento científico e
filosófico, e das realizações dos povos de
origem negro-africana. A memória do negro brasileiro é
parte e partícipe nesse esforço de reconstrução
de um passado ao qual todos os afro-brasileiros estão ligados.
Ter um passado é ter uma conseqüente responsabilidade
nos destinos e no futuro da nação negro-africana,
mesmo enquanto preservando a nossa condição de edificadores
deste país e de cidadãos genuínos do Brasil.
A obra fundamental de Cheikh Anta Diop, principalmente seu livro
The African Origin of Civilization (versão em inglês
de seleções de Nations Nègres et Culture
e Antériorité des Civilisations Nègres, originalmente
publicados em francês), apresenta uma confrontação
radical e um desafio irrespondível à arrogância
intelectual, desonestidade científica e carência
ética do mundo acadêmico ocidental ao tratar os povos,
civilizações e culturas produzidas pela África.
Utilizando-se dos recursos científicos euro-ocidentais
- Diop é químico, diretor do laboratório
de radiocarbono do IFAN, em Dacar, além de egiptólogo,
historiador e lingüista - este sábio está reconstruindo
a significação e os valores da antigas culturas
e civilizações erigidas pelos negro-africanos, as
quais por longo tempo têm permanecido obnubiladas pelas
manipulações, mentiras, distorções
e roubos. São os bens de cultura e civilização
e de artes criados pelos nossos antepassados no Egito antigo,
os quais eram negros e não um povo de origem branco (ou
vermelho escuro) conforme os cientistas ocidentais do século
XIX proclamavam com ênfase tão mentirosa quanto interessada.
Vejamos como a esse respeito se manifesta Diop:
O
fruto moral da sua civilização está para
ser contado entre os bens do mundo negro. Ao invés de se
apresentar à história como um devedor insolvente,
este mundo negro é o próprio iniciador da civilização
"ocidental" ostentada hoje diante dos nossos olhos.
Matemática pitagórica, a teoria dos quatro elementos
de Thales de Mileto, materialismo epicureano, idealismo platônico,
judaísmo, islamismo, e a ciência moderna, estão
enraizados na cosmogonia e na ciência egípcias. Só
temos que meditar sobre Osíris, o deus-redentor, que se
sacrifica, morre e é ressuscitado, uma figura essencialmente
identificável a Cristo (1974: XIV).
As afirmações de Diop se baseiam em rigorosa pesquisa,
em rigoroso exame e rigorosa conclusão, não deixando
margem para dúvidas ou discussões. E isto longe
de pretender aquele dogmatismo que sempre caracteriza as certezas
"científicas" do mundo ocidental. O que Diop
fez foi simplesmente derruir as estruturas supostamente definitivas
do conhecimento "universal" no que respeita à
antigüidade egípcia e grega. Gostem ou não,
os ocidentais têm de tragar verdades como esta: "...quatro
séculos antes da publicação de A mentalidade
primitiva de Lévy-Bruhl, a África negra muçulmana
comentava a lógica formal de Aristóteles (que ele
plagiou do Egito negro) e demonstrava-se especialista em dialética"
(Diop, 1963: 212).
E isto, não esqueçamos, acontecia quase 500 anos
antes que ao menos tivessem nascido Hegel ou Karl Marx...
Diop revolve todo o processo da mistificação de
um Egito negro que se tornou branco por artes da magia européia
dos egiptólogos. Após a campanha militar de Bonaparte
no Egito, em 1799, e depois que os hieróglifos da pedra
Rosetta foram decifrados por Champollion, o jovem, em 1822, os
egiptólogos se desarticularam atônitos diante da
grandiosidade das descobertas reveladas.
Eles
geralmente a reconheceram como a mais antiga civilização,
a que tinha engendrado todas as outras. Mas com o imperialismo,
sendo o que é, tornou-se crescentemente "inadmissível"
continuar aceitando a teoria evidente até então
- de um Egito negro. O nascimento da egiptologia foi assim marcado
pela necessidade de destruir a memória de um Egito negro,
a qualquer custo, em todas as mentes. Daí em diante, o
denominador comum de todas as teses dos egiptólogos, sua
relação íntima e profunda afinidade, pode
ser caracterizado como uma tentativa desesperada de refutar essa
opinião [do Egito ser negro]. Quase todos os egiptólogos
enfatizaram sua falsidade como uma questão fechada (1974:
45).
Desta posição intelectual em diante, como procederam
os egiptólogos? Como negar a realidade egípcia,
essencialmente negra, a qual não apresentava contradições
científicas realmente confiáveis ou válidas?
Não possuindo argumentos ou razões para refutar
a verdade, exposta pelos antigos que viram o Egito de perto, alguns
egiptólogos preferiram guardar silêncio sobre a questão;
outros, mais obsessivos em seu irracionalismo, optaram pelo caminho
da rejeição dogmática, infundada e indignada.
De um modo geral, todos "se lamentavam que um povo tão
normal como os egípcios antigos pudessem ter feito tão
grave erro e desta forma criar tantas dificuldades e delicados
problemas para os especialistas modernos" (Diop, 1974: 45).
A pretensiosidade eurocentrista nesse episódio se expõe
de corpo inteiro. Lembra o exemplo de um típico escritor
do "progressismo" brasileiro, o racista Monteiro Lobato,
quando acusa o negro-africano de haver provocado graves problemas
para o Brasil com a miscigenação, a tão celebrada
mistura de sangues negro e branco... Mas voltemos aos egiptologistas:
eles prosseguiram obstinadamente o vão esforço de
provar "cientificamente" uma origem branca para a antiga
civilização do Egito negro.
Quanto a Diop, compassivo e humano diante do feroz dogmatismo
dos egiptólogos brancos, revelou bastante paciência
e gentileza explicando-lhes que não alegava superioridade
racial ou qualquer gênio especificamente negro naquela constatação
puramente científica de que a civilização
do Egito antigo fora erigida por um povo negro. O sucesso, explicou-lhe
Diop, resultou de fatores históricos, de condições
mesológicas - clima, recursos naturais, e assim por diante
- somados a outros elementos não-rácicos. Tanto
assim foi que, mesmo tendo-se expandido por toda a África
negra, do centro e do oeste do continente, a civilização
egípcia, ao embate de outras influências e situação
histórica diversa, entrou num processo de desintegração
e franco retrocesso. O importante é sabermos alguns dos
fatores que contribuíram para a edificação
da civilização egípcia, entre os quais Diop
enumera estes: resultado de acidente geográfico que condicionou
o desenvolvimento político-social dos povos que viviam
às margens do vale do Nilo; as inundações
que forçavam providências coletivas de defesa e sobrevivência,
situação que favorecia a unidade e excluía
o egoísmo individual ou pessoal. Nesse contexto surgiu
a necessidade de uma autoridade central coordenadora da vida e
das atividades em comum. A invenção da geometria
nasceu da necessidade da divisão geográfica, e todos
os demais avanços foram obtidos no esforço de atender
uma carência requerida pela sociedade.
Um pormenor interessa particularmente à memória
do negro brasileiro: aquele onde Diop menciona as relações
do antigo Egito com a África negra, de modo específico
com os iorubás. Parece que tais relações
foram tão íntimas a ponto de se poder "considerar
como um fato histórico a possessão conjunta do mesmo
habitat primitivo pelos iorubás e egípcios".
Diop levanta a hipótese de que a latinização
de Horus, filhos de Osíris e Ísis, resultou no apelativo
Orixá. Seguindo essa pista de estudo comparativo, ao nível
da lingüística e outras disciplinas, Diop cita J.
Olumide Lucas em The religion of the Yorubas, o qual traça
os laços egípcios do seu povo iorubá, concluindo
que tudo leva à verificação do seguinte:
a) uma similaridade ou identidade de linguagem; b) uma similaridade
ou identidade de crenças religiosas; c) uma similaridade
ou identidade de idéias e práticas religiosas; d)
uma sobrevivência de costumes, lugares, nomes de pessoas,
objetos, práticas, e assim por diante (Diop, 1974: 184;
Lucas, 1978: 18).
Meu objetivo aqui é o de apenas chamar a atenção
para esta significativa dimensão da antigüidade da
memória afro-brasileira. Este é um assunto extenso
e complexo, cuja seriedade requer e merece pesquisa e reflexão
aprofundadas, no contexto de uma revisão crítica
das definições e dos julgamentos pejorativos que
há séculos pesam sobre os povos negro-africanos.
Consciência negra e sentimento quilombista
Numa perspectiva mais restrita, a memória do negro brasileiro
atinge uma etapa histórica decisiva no período escravocrata
que se inicia por volta de 1500, logo após a "descoberta"
do território e os atos inaugurais dos portugueses tendo
em vista a colonização do país. Excetuando
os índios, o africano escravizado foi o primeiro e único
trabalhador, durante três séculos e meio, a erguer
as estruturas deste país chamado Brasil. Creio ser dispensável
evocar neste instante o chão que o africano regou com seu
suor, lembrar ainda uma vez mais os canaviais, os algodoais, o
ouro, o diamante e a prata, os cafezais, e todos os demais elementos
da formação brasileira que se nutriram no sangue
martirizado do escravo. O negro está longe de ser um arrivista
ou um corpo estranho: ele é o próprio corpo e alma
deste país. Mas a despeito dessa realidade histórica
inegável e incontraditável, os africanos e seus
descendentes nunca foram e não são tratados como
iguais pelos segmentos minoritários brancos que complementam
o quadro democrático nacional. Estes têm mantido
a exclusividade do poder, do bem-estar e da renda nacional.
É escandaloso notar que porções significativas
da população brasileira de origem européia
começaram a chegar ao Brasil nos fins do século
passado como imigrantes pobres e necessitados. Imediatamente passaram
a desfrutar de privilégios que a sociedade convencional
do país lhes concedeu como parceiros de raça e de
supremacismo eurocentrista. Tais imigrantes não demonstraram
nem escrúpulo e nem dificuldades em assumir os preconceitos
raciais contra o negro-africano, vigentes aqui e na Europa, se
beneficiando deles e preenchendo as vagas no mercado de trabalho
que se negava aos ex-escravos e seus descendentes. Estes foram
literalmente expulsos do sistema de trabalho e produção
à medida que se aproximava a data "abolicionista"
de 13 de maio de 1888.
Tendo-se em vista a condição atual do negro à
margem do emprego ou degradado no semi-emprego e subemprego; levando-se
em conta a segregação residencial que lhe é
imposta pelo duplo motivo de condição racial e pobreza,
destinando-lhe como áreas de moradias ghettos de várias
denominações: favelas, alagados, porões,
mocambos, invasões, conjuntos populares ou "residenciais";
considerando-se a permanente brutalidade policial e as prisões
arbitrárias motivadas pela cor de sua pele, compreende-se
por que todo negro consciente não tem a menor esperança
de que uma mudança progressista possa ocorrer espontaneamente
em benefício da comunidade afro-brasileira. As favelas
pululam em todas as grandes cidades: Rio de Janeiro, São
Paulo, Salvador, Recife, Brasília, podem se apontadas como
exemplos. A cifra dos favelados exprime em si mesma a desgraça
crescente no quociente alto que apresenta. Para ilustrar lembro
os dados do Departamento de Serviço Social de São
Paulo, publicados pelo O Estado de São Paulo de 16 de agosto
de 1970, os quais denunciavam que mais de 60% da população
paulistana vive em condições precaríssimas;
se não esquecermos de que São Paulo é a cidade
brasileira melhor servida de instalações de água
e esgoto, poderemos fazer uma idéia mais aproximada das
impossíveis condições higiênicas em
que vegetam os afro-brasileiros por esse país afora. Em
Brasília, segundo a revista Veja de 8 de outubro de 1969,
entre os 510.000 habitantes da capital federal, 80.000 eram favelados.
Enquanto no Rio de Janeiro a porcentagem de favelados oscila entre
40 a 50 por cento da população. Os racistas de qualquer
cor, sob a máscara de "apenas reacionários,
dirão que os ghettos existem disfarçados em favelas
em várias cidades européias, não sendo um
fenômeno tipicamente brasileiro. Certo. A tipicidade está
em que a maioria absoluta dos favelados brasileiros, cerca de
95%, são de origem africana. Este detalhe caracteriza uma
irrefutável segregação racial de fato. Isto
no que concerne à população negra urbana.
Entretanto, cumpre ressaltar que a maioria dos descendentes de
escravos ainda vegeta nas zonas rurais, escrava de uma existência
parasitária, numa situação de desamparo total.
Pode-se dizer que não vivem uma vida de seres humanos.
E como sobrevive o segmento citadino da população
afro-brasileira? Constitui uma categoria denominada pelo Anuário
Estatístico do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística
(IBGE) de "empregados em serviços". Uma estranha
qualificação ou eufemismo para o subemprego e o
semi-emprego, que rotula quase quatro milhões e meio de
brasileiros. (Quartim, 1971: 152). Tal eufemismo surpreende porque
nessa classificação se incluem os empregados sem
ordenado fixo, isto é, biscateiros vivendo a pequena aventura
diária de engraxar sapatos, lavar carros, entregar encomendas,
transmitir recado, a venda ambulante de doces, frutas ou objetos,
tudo à base da remuneração miserável
do centavo.
Este é um retrato imperfeito de uma situação
mais grave, a qual tem sido realidade em todo o decorrer de nossa
história. Desta realidade é que nasce a necessidade
urgente ao negro de defender sua sobrevivência e de assegurar
a sua existência de ser. Os quilombos resultaram dessa exigência
vital dos africanos escravizados, no esforço de resgatar
sua liberdade e dignidade através da fuga ao cativeiro
e da organização de uma sociedade livre. A multiplicação
dos quilombos fez deles um autêntico movimento amplo e permanente.
Aparentemente um acidente esporádico no começo,
rapidamente se transformou de uma improvisação de
emergência em metódica e constante vivência
dos descendentes de africanos que se recusavam à submissão,
à exploração e à violência do
sistema escravista. O quilombismo se estruturava em formas associativas
que tanto podiam estar localizadas no seio de florestas de difícil
acesso que facilitava sua defesa e sua organização
econômico-social própria, como também assumiram
modelos de organizações permitidas ou toleradas,
freqüentemente com ostensivas finalidades religiosas (católicas),
recreativas, beneficentes, esportivas, culturais ou de auxílio
mútuo. Não importam as aparências e os objetivos
declarados: fundamentalmente, todas elas preencheram uma importante
função social para a comunidade negra, desempenhando
um papel relevante na sustentação da comunidade
africana. Genuínos focos de resistência física
e cultural. Objetivamente, essa rede de associações,
irmandades, confrarias, clubes, grêmios, terreiros, centros,
tendas, afochés, escolas de samba, gafieiras foram e são
os quilombos legalizados pela sociedade dominante; do outro lado
da lei se erguem os quilombos revelados que conhecemos. Porém
tanto os permitidos quanto os "ilegais" foram uma unidade,
uma única afirmação humana, étnica
e cultural, a um tempo integrando uma prática de libertação
e assumindo o comando da própria história. A este
complexo de significações, a esta praxis afro-brasileira,
eu denomino de quilombismo.
A constatação fácil do enorme número
de organizações que se intitularam no passado e
se intitulam no presente de Quilombo e/ou Palmares testemunha
o quanto o exemplo quilombista significa como valor dinâmico
na estratégia e na tática de sobrevivência
e progresso das comunidades de origem africana. Com efeito, o
quilombismo tem se revelado fator capaz de mobilizar disciplinadamente
o povo afro-brasileiro por causa do profundo apelo psicossocial
cujas raízes estão entranhadas na história,
na cultura e na vivência dos afro-brasileiros. O Movimento
Negro Unificado Contra o Racismo e a Discriminação
Racial assim registra seu conceito quilombola ao definir o "Dia
da Consciência Negra":
Nós,
negros brasileiros, orgulhosos por descendermos de Zumbi, líder
da República Negra dos Palmares, que existiu no Estado
de Alagoas, de 1595 a 1695, desafiando o domínio português
e até holandês, nos reunimos hoje, após 283
anos, para declarar a todo o povo brasileiro nossa verdadeira
e efetiva data: 20 de novembro, Dia Nacional da Consciência
Negra! Dia da morte do grande líder negro nacional, Zumbi,
responsável pela primeira e única tentativa brasileira
de estabelecer uma sociedade democrática, ou seja, livre,
e em que todos - negros, índios e brancos - realizaram
um grande avanço político, econômico e social.
Tentativa esta que sempre esteve presente em todos os quilombos
(1978).
A continuidade dessa consciência de luta político-social
se estende por todos os Estados onde existe significativa população
de origem africana. O modelo quilombista vem atuando como idéia-força,
energia que inspira modelos de organização dinâmica
desde o século XV. Nessa dinâmica quase sempre heróica,
o quilombismo está em constante reatualização,
atendendo exigências do tempo histórico e situações
do meio geográfico. Circunstância que impôs
aos quilombos diferenças em suas formas organizativas.
Porém no essencial se igualavam. Foram (e são),
nas palavras da historiadora Beatriz Nascimento, "um local
onde a liberdade era praticada, onde os laços étnicos
e ancestrais eram revigorados" (1979: 17). Esta estudiosa
mulher negra afirma ter o quilombo exercido "um papel fundamental
na consciência histórica dos negros" (1979:
18).
Percebe-se o ideal quilombista difuso, porém consistente,
permeando todos os níveis da vida negra e os mais recônditos
meandros e/ou refolhos da personalidade afro-brasileira. Um ideal
forte e denso que via de regra permanece reprimido pelas estruturas
dominantes, outras vezes é sublimado através dos
vários mecanismos de defesa fornecidos pelo inconsciente
individual ou coletivo. Mas também acontece às vezes
o negro se apropriar dos mecanismos que a sociedade dominante
concedeu ao seu protagonismo com a maliciosa intenção
de controlá-lo. Nessa reversão do alvo, o negro
se utiliza dos propósitos não-confessados de domesticação
qual boomerang ofensivo. É o exemplo que nos deixou Candeia,
compositor de sambas e negro inteligentemente dedicado à
redenção do seu povo. Organizou a Escola de Samba
Quilombo, nos subúrbios do Rio de Janeiro, com um profundo
senso do valor político-social do samba em função
do progresso da coletividade negra. Este importante membro da
família quilombista faleceu recentemente, mas até
o instante derradeiro ele manteve uma lúcida visão
dos objetivos da entidade que fundou e presidiu no rumo dos interesses
mais legítimos do povo afro-brasileiro. Basta folhear o
livro de sua autoria e de Isnard, e ler trechos como este:
Quilombo - Grêmio Recreativo Arte Negra (...) nasceu da
necessidade de se preservar toda a influência do afro na
cultura brasileira. Pretendemos chamar a atenção
do povo brasileiro para as raízes da arte negra brasileira.
A posição do "Quilombo" é principalmente
contrária à importação de produtos
culturais prontos e acabados produzidos no exterior (1978: 87-88).
Neste último trecho, os autores tocam num ponto importante
do quilombismo: o caráter nacionalista do movimento. Nacionalismo
aqui não deve ser traduzido como xenofobismo. Sendo o quilombismo
uma luta antiimperialista, se articula ao pan-africanismo e sustenta
radical solidariedade com todos os povos em luta contra a exploração,
a opressão, o racismo e as desigualdades motivadas por
raça, cor, religião ou ideologia.
Num folheto intitulado 90 anos de abolição, publicado
pela Escola de Samba Quilombo, Candeia registra que "foi
através do Quilombo, e não do movimento abolicionista,
que se desenvolveu a luta dos negros contra a escravatura"
(1978: 7).
E o movimento quilombista está longe de haver esgotado
seu papel histórico. Está tão vivo hoje quanto
no passado, pois a situação das camadas negras continua
a mesma, com pequenas alterações de superfície.
Candeia prossegue:
Os
quilombos eram violentamente reprimidos, não só
pela força do governo, mas também por indivíduos
interessados no lucro que teriam devolvendo os fugitivos a seus
donos. Esses especialistas em caçar escravos fugidos ganharam
o nome de triste memória: capitães-do-mato (1978:
5).
A citação dos capitães-do-mato é importante:
via de regra eram eles mulatos, isto é, negros de pele
clara assimilados pela classe dominante. Em nossos dias ainda
podemos encontrar centenas, milhares, desses negros que vivem
uma existência ambígua. Não pelo fato de possuírem
o sangue do branco opressor, mas porque internalizando como positiva
a ideologia do embranquecimento (o branco é o superior
e o negro o inferior) se distanciam das realidades do seu povo
e se prestam ao papel de auxiliares das forças repressivas
do supremacismo branco. E tanto ontem quanto hoje, os serviços
que se prestam à repressão se traduzem em lucro
social e lucro pecuniário.
Nosso Brasil é tão vasto, ainda tão desconhecido
e despovoado que podemos supor, sem grande margem de erro, que
existem muitas comunidades negras vivendo isoladas, sem ligação
ostensiva com as pequenas cidades e vilas do interior do país.
Serão diminutas localidades rurais, desligadas do fluxo
principal da vida do país, e mantendo estilos e hábitos
de vida africana, ou quase, sob um regime de agricultura coletiva
de subsistência ou sobrevivência. Podem até
mesmo usar o idioma original trazido da África, estropiado,
é bem verdade, porém mesmo assim linguagem africana
conservada na espécie de quilombismo em que vivem. Às
vezes podem até ganhar notícias extensas nas páginas
da imprensa, conforme ocorreu à comunidade do Cafundó,
situada nas imediações de Salto de Pirapora, no
Estado de São Paulo. Os membros da comunidade herdaram
uma fazenda deixada pelo antigo senhor, e não faz muito
tempo as terras estavam sendo invadidas por latifúndiários
das vizinhanças. Obviamente brancos, esse latifundários,
com mentalidade escravocrata, não podem aceitar que um
grupo de descendentes africanos possua uma propriedade imobiliária.
Este não é um fato único, mas foi aquele
que ganhou maior publicidade, mobilizando os negros paulistas
em sua defesa. Ao visitar pela primeira vez a cidade de Conceição
de Mato Dentro, em Minas Gerais, em 1975, tive oportunidade de
me encontrar com um dos moradores de uma comunidade negra daquelas
redondezas semelhante a Cafundó. Também herdaram
a propriedade, segundo me relatou o dito morador, negro de 104
anos, ágil de inteligência e de pernas. Caminhava
quase todos os dias cerca de 10 quilômetros a pé,
e assim mantinha o contato do seu povo com a cidadezinha de Mato
Dentro.
O avanço de latifundiários e de especuladores de
imóveis nas terras da gente negra está pedindo uma
investigação ampla e funda. Este é um fenômeno
que ocorre tanto nas zonas rurais como nas cidades. Vale a pena
transcrever, a respeito, trechos de uma nota estampada em Veja,
seção "Cidades", a 10 de dezembro de 1975,
página 52:
Desde sua remota aparição em Salvador, há
quase dois séculos, os terreiros de candomblé foram
sempre fustigados por severas restrições policiais.
E, pelo menos nos últimos vinte anos, o cerco movido pela
polícia foi sensivelmente fortalecido por um poderoso aliado
- a expansão imobiliária, que se estendeu às
áreas distantes do centro da cidade onde ressoavam os atabaques.
Mais ainda, em nenhum momento a Prefeitura esboçou barricadas
legais para proteger esses redutos da cultura afro-brasileira
- embora a capital baiana arrecadasse gordas divisas com a exploração
do turismo fomentado pela magia dos orixás (...) E nunca
se soube da aplicação de sanções para
os inescrupulosos proprietários de terrenos vizinhos às
casas de culto, que se apossam impunemente de áreas dos
terreiros. Foi assim que, em poucos anos, a Sociedade Beneficente
São Jorge do Engenho Velho, ou terreiro da Casa Branca,
acabou perdendo metade de sua antiga área de 7.500 metros
quadrados. Mas infeliz ainda, a Sociedade São Bartolomeu
do Engenho Velho da Federação, ou candomblé
de Bogum, assiste impotente à veloz redução
do terreno sagrado onde se ergue a mítica "árvore
de Azaudonor" trazida da África há 150 anos
e periodicamente agredida por um vizinho que insiste em podar
seus galhos mais frondosos.
Eis como a sociedade dominante apertou o cerco da destituição,
da fome e do genocídio dos descendentes africanos. Até
os poucos, as raras exceções que por um milagre
conseguiram ultrapassar a fronteira implacável da miséria,
ou as instituições religiosas que ocupavam há
séculos determinado espaço, se vêem de uma
hora para outra invadidos em suas propriedades e usurpados em
suas terras!
Quilombismo: um conceito científico histórico-social
Para
os africanos escravizados assim como para os seus descendentes
"libertos", tanto o Estado colonial português
quanto o Brasil - colônia, império e república
- têm uma única e idêntica significação:
um estado de terror organizado contra eles. Um Estado por assim
dizer natural em sua iniqüidade fundamental, um Estado naturalmente
ilegítimo. Porque tem sido a cristalização
político-social dos interesses exclusivos de um segmento
elitista, cuja aspiração é atingir o status
ário-européia em estética racial, em padrão
de cultura e civilização. Este segmento tem sido
o maior beneficiário da espoliação que em
todos os sentidos tem vitimado o povo afro-brasileiro ao longo
da nossa história. Conscientes da extensão e profundidade
dos problemas que enfrenta, o negro sabe que sua oposição
ao que aí está não se esgota na obtenção
de pequenas reivindicações de caráter empregatício
ou de direitos civis, no âmbito da dominante sociedade capitalista-burguesa
e sua decorrente classe média organizada. O negro já
compreendeu que terá de derrotar todas as componentes do
sistema ou estrutura vigente, inclusive a sua intelligentsia responsável
pela cobertura ideológica da opressão através
da teorização "científica" seja
de sua inferioridade biossocial, da miscigenação
sutilmente compulsória ou do mito "democracia racial".
Essa intelligentsia, aliada a mentores europeus e norte-americanos,
fabricou uma "ciência" histórica ou humana
que ajudou a desumanização dos africanos e seus
descendentes para servir os interesses dos opressores eurocentristas.
Uma ciência histórica que não serve à
história do povo de que trata está negando-se a
si mesma. Trata-se de uma presunção cientificista
e não de uma ciência histórica verdadeira.
Como poderiam as ciências humanas, históricas - etnologia,
economia, história, antropologia, sociologia, psicologia,
e outras - nascidas, cultivadas e definidas para povos e contextos
sócio-econômicos diferentes, prestar útil
e eficaz colaboração ao conhecimento do negro, sua
realidade existencial, seus problemas e aspirações
e projetos? Seria a ciência social elaborada na Europa ou
nos Estados Unidos tão universal em sua aplicação?
Os povos negros conhecem na própria carne a falaciosidade
do universalismo e da isenção dessa "ciência".
Aliás, a idéia de uma ciência histórica
pura e universal está ultrapassada. O conhecimento científico
que os negros necessitam é aquele que os ajude a formular
teoricamente - de forma sistemática e consistente - sua
experiência de quase 500 anos de opressão. Haverá
erros ou equívocos inevitáveis em nossa busca de
racionalidade do nosso sistema de valores, em nosso esforço
de autodefinição de nós mesmos e de nosso
caminho futuro. Não importa. Durante séculos temos
carregado o peso dos crimes e dos erros do eurocentrismo "científico",
os seus dogmas impostos em nossa carne como marcas ígneas
da verdade definitiva. Agora devolvemos ao obstinado segmento
"branco" da sociedade brasileira as suas mentiras, a
sua ideologia de supremacismo europeu, a lavagem cerebral que
pretendia tirar a nossa humanidade, a nossa identidade, a nossa
dignidade, a nossa liberdade. Proclamando a falência da
colonização mental eurocentrista, celebramos o advento
da libertação quilombista.
O negro tragou até à última gota os venenos
da submissão imposta pelo escravismo, perpetuada pela estrutura
do racismo psicossócio-cultural que mantém atuando
até os dias de hoje. Os negros têm como projeto coletivo
a ereção de uma sociedade fundada na justiça,
na igualdade e no respeito a todos os seres humanos, na liberdade;
uma sociedade cuja natureza intrínseca torne impossível
a exploração econômica e o racismo. Uma democracia
autêntica, fundada pelos destituídos e os deserdados
deste país, aos quais não interessa a simples restauração
de tipos e formas caducas de instituições políticas,
sociais e econômicas as quais serviriam unicamente para
procrastinar o advento de nossa emancipação total
e definitiva, que somente pode vir com a transformação
radical das estruturas vigentes. Cabe mais uma vez insistir: não
nos interessa a proposta de uma adaptação aos moldes
da sociedade capitalista e de classes. Esta não é
a solução que devemos aceitar como se fora mandamento
inelutável. Confiamos na idoneidade mental do negro, e
acreditamos na reinvenção de nós mesmos e
de nossa história. Reinvenção de um caminho
afro-brasileiro de vida fundado em sua experiência histórica,
na utilização do conhecimento crítico e inventivo
de suas instituições golpeadas pelo colonialismo
e o racismo. Enfim, reconstruir no presente uma sociedade dirigida
ao futuro, mas levando em conta o que ainda for útil e
positivo no acervo do passado. Um futuro melhor para o negro tanto
exige uma nova realidade em termos de pão, moradia, saúde,
trabalho, como requer um outro clima moral e espiritual de respeito
às componentes mais sensíveis da personalidade negra
expressas em sua religião, cultura, história, costumes
e outras formas.
A segurança de um futuro melhor para a população
negra não se inclui nos dispositivos da chamada "lei
de segurança nacional". Esta é a segurança
das elites dominantes, dos seus lucros e compromissos com o capital
interno ou estrangeiro, privado ou estatal. A segurança
da "ordem" econômica, social e política
em vigor é aquela associada e inseparável das teorias
"científicas" e dos parâmetros culturais
e ideológicos engendrados pelos opressores e exploradores
tradicionais da população afro-brasileira.
Tampouco nos interessa o uso ou a adoção de slogans
ou palavras de ordem de um esquerdismo ou democratismo vindos
de fora. A revolução negra produz seus historiadores,
sociólogos, antropólogos, pensadores, filósofos
e cientistas políticos. Tal imperativo se aplica também
ao movimento afro-brasileiro.
Um instrumento conceitual operativo se coloca, pois, na pauta
das necessidades imediatas da gente negra brasileira. O qual não
deve e não pode ser fruto de uma maquinação
cerebral arbitrária, falsa e abstrata. Nem tampouco um
elenco de princípios importados, elaborados a partir de
contextos e de realidades diferentes. A cristalização
dos nossos conceitos, definições ou princípios
deve exprimir a vivência de cultura e de praxis da coletividade
negra. Incorporar nossa integridade de ser total, em nosso tempo
histórico, enriquecendo e aumentando nossa capacidade de
luta.
Precisamos e devemos codificar nossa experiência por nós
mesmos, sistematizá-la, interpretá-la e tirar desse
ato todas as lições teóricas e práticas
conforme a perspectiva exclusiva dos interesses da população
negra e de sua respectiva visão de futuro. Esta se apresenta
como a tarefa da atual geração afro-brasileira:
edificar a ciência histórico-humanista do quilombismo.
Quilombo não significa escravo fugido. Quilombo quer dizer
reunião fraterna e livre, solidariedade, convivência,
comunhão existencial. Repetimos que a sociedade quilombola
representa uma etapa no progresso humano e sócio-político
em termos de igualitarismo econômico. Os precedentes históricos
conhecidos confirmam esta colocação. Como sistema
econômico o quilombismo tem sido a adequação
ao meio brasileiro do comunitarismo ou ujamaaísmo da tradição
africana. Em tal sistema as relações de produção
diferem basicamente daquelas prevalecentes na economia espoliativa
do trabalho, chamada capitalismo, fundada na razão do lucro
a qualquer custo. Compasso e ritmo do quilombismo se conjugam
aos mecanismos operativos, articulando os diversos níveis
de uma vida coletiva cuja dialética interação
propõe e assegura a realização completa do
ser humano. Nem propriedade privada da terra, dos meios de produção
e de outros elementos da natureza. Todos os fatores e elementos
básicos são de propriedade e uso coletivo. Uma sociedade
criativa, no seio da qual o trabalho não se define como
uma forma de castigo, opressão ou exploração;
o trabalho é antes uma forma de libertação
humana que o cidadão desfruta como um direito e uma obrigação
social. Liberto da exploração e do jugo embrutecedor
da produção tecno-capitalista, a desgraça
do trabalhador deixará de ser o sustentáculo de
uma sociedade burguesa parasitária que se regozija no ócio
de seus jogos e futilidades.
Os quilombolas dos séculos XV, XVI, XVII, XVIII e XIX nos
legaram um patrimônio de prática quilombista. Cumpre
aos negros atuais manter e ampliar a cultura afro-brasileira de
resistência ao genocídio e de afirmação
da sua verdade. Um método de análise, compreensão
e definição de uma experiência concreta, o
quilombismo expressa a ciência do sangue escravo, do suor
que este derramou enquanto pés e mãos edificadores
da economia deste país. Um futuro de melhor qualidade para
a população afro-brasileira só poderá
ocorrer pelo esforço enérgico de organização
e mobilização coletiva, tanto da população
negra como das suas inteligências e capacidades escolarizadas,
para a enorme batalha no fronte da criação teórico-científica.
Uma teoria científica inextricavelmente fundida à
nossa prática histórica que efetivamente contribua
à salvação da comunidade negra, a qual vem
sendo inexoravelmente exterminado. Seja pela matança direta
da fome, seja pela miscigenação compulsória,
pela assimilação do negro aos padrões e ideais
ilusórios do lucro ocidental. Não permitamos que
a derrocada desse mundo racista, individualista e inimigo da felicidade
humana afete a existência futura daqueles que efetiva e
plenamente nunca a ele pertenceram: nós, negro-africanos
e afro-brasileiros.
Condenada a sobreviver rodeada ou permeada de hostilidade, a sociedade
afro-brasileira tem persistido nesses quase 500 anos sob o signo
de permanente tensão. Tensão esta que consubstancia
a essência e o processo do quilombismo.
Assegurar a condição humana do povo afro-brasileiro,
há tantos séculos tratado e definido de forma humilhante
e opressiva, é o fundamento ético do quilombismo.
Deve-se assim compreender a subordinação do quilombismo
ao conceito que define o ser humano como o seu objeto e sujeito
científico, dentro de uma concepção de mundo
e de existência na qual a ciência constitui uma entre
outras vias do conhecimento.
Estudos
sobre o branco
Devemos
impedir por todos os meios, nós os descendentes negro-africanos,
que a confusão e a falência das bases do chamado
mundo ocidental branco derroguem aquilo que há de mais
valioso e profundo em nossa natureza, cultura e experiência.
Conhecer o inimigo e/ou adversário, desde dentro, significa
atuar em autodefesa. Conseqüentemente devemos nos preparar
para estudar o branco e seus impulsos agressivos.
Aqui estou reatando uma idéia antiga do escritor Fernando
Góes, mais tarde retomada por Guerreiro Ramos. Na mesma
direção, também houve constante pregação
na militância do saudoso irmão negro Aguinaldo de
Oliveira Camargo; no auditório do 1º Congresso do Negro
Brasileiro (Rio, 1950), ressoaram estas palavras sábias
de Aguinaldo: "Reeduquemos o branco para que ele aprenda
a respeitar a criança negra, a respeitar o doutor negro,
a empregada negra, para que aprenda a casar-se com a mulher negra"
apud Nascimento, 1968: 231).
É na mesma linha de raciocínio que se situa mais
uma observação de Cheikh Anta Diop; em vários
pontos-chaves de sua obra, Diop abordou a questão, referindo-se
às idiossincrasias dos branco europeus:
Não há absolutamente dúvidas de que a raça
branca, a qual apareceu pela primeira vez durante o Alto Paleolítico
- em torno de 20.000 antes de Cristo - , era o produto de um processo
de despigmentação. (...) não há dúvida
de que o panorama cultural desses protobrancos era eventualmente
condicionado durante a época glacial pelas condições
extremamente duras do seu "berço nórdico",
até o momento de seus movimentos migratórios rumo
às regiões meridionais, em torno de 1.500 anos antes
de Cristo. Moldados por seu berço ambiental, aqueles primeiros
nômades brancos desenvolveram, sem dúvida, uma consciência
social típica do ambiente hostil ao qual estiveram confinados
por um longo período. A xenofobia se fixou como um dos
traços de sua consciência social. A hierarquização
patriarcal outra. (...) Penso que a Dra. Welsing identificou corretamente
a origem do racismo num definitivo reflexo defensivo. Creio que
o racismo seja uma reação de medo, mais freqüentemente
inconfesso que não. (Diop, 1986: 34).
Assim,
a origem da sócio-psicopatologia do branco não se
radica em sua natureza biológica. Ao contrário,
trata-se de um fenômeno de caráter histórico:
os brancos tinham medo porque, na época dessas migrações,
se sentiam inferiores em número e em avanço cultural
diante das civilizações meridionais negras, sedentárias
e agrícolas. Sua válvula de segurança consistiu
na ereção e no desenvolvimento da teoria do supremacismo
branco.
Tive a oportunidade de formalizar a sugestão de Fernando
Góes e Guerreiro Ramos quando propus em um seminário
que estava ministrando na Universidade de Ifé que os africanos
deveriam promover um Congresso Internacional para estudar os brancos
da Europa e seu prolongamento arianóide no Brasil. A ciência
negro-africana examinaria o fenômeno mental e psiquiátrico
que motivou os europeus a escravizarem outros seres humanos, seus
irmãos, com uma brutalidade sádica sem precedentes
na história dos homens. Escrutinaria, a ciência negra,
em suas origens psiconeurológicas e psicocriminológicas,
a necessidade emocional que leva o branco a tentar justificar
seus atos de assassínio, tortura, pilhagem, roubo e estupro
com fantasias absurdas denominadas, por exemplo, de "carga
do homem branco", "destino manifesto", "civilizar
os selvagens", "cristianizar os pagãos",
"filantropia", "imperativo econômico",
"miscigenação", "democracia racial",
"assimilação" e outras metáforas
que não conseguem ocultar os sintomas que denunciam uma
mórbida compulsão cultivada por uma civilização
de fundamentos decididamente patológicos. Anotaria a ciência
negra as dimensões e o peso da massa encefálica
bem como a forma craniana dos brancos para averiguar qual a motivação
que os conduz a roubar os tesouros artísticos de outros
povos e depois, arrogante e obstinadamente, recusar a devolvê-los,
mesmo em se tratando de uma celebração cultural
e artística daqueles povos, conforme exemplifica a atitude
do governo britânico se negando a ceder à Nigéria
uma máscara-símbolo do Festac 1977, e mantendo-a
trancada em seu museu de Londres. Trata-se, evidentemente, de
uma peça de alto valor artístico e histórico,
criada pelos nossos antepassados nigerianos.
De um ponto de vista psiquiátrico, se analisariam as atitudes
formais, mecânicas, destituídas de emoção
que os europeus e seus imitadores demonstram durante seus cultos
religiosos. Este comportamento, sob uma perspectiva antropológica
e psicológica, denuncia uma profunda ausência de
identidade e vinculação com os seus deuses, além
de uma carência de contato espiritual mais íntimo.
Estudaria ainda, a partir de uma visão sociológica
e etnológica, a natureza singularmente desumanizada e mecânica
da sociedade euro-norte-americana, cuja última façanha,
frio resultado de sua "objetividade", é a invenção
de armas destrutivas capazes de obliterar toda a raça humana.
Investigaria as origens da avareza mórbida que a leva a
envenenar o seu próprio suprimento alimentar e o do resto
do mundo com químicas, tinturas e preservativos, numa patética
"eficiência" em busca de mais lucros. E nessa
diabólica manipulação gananciosa, a destruir
de forma insensível milhões de toneladas de alimentos,
ou sacrificar no altar do desperdício farto outros milhões
de cabeças de gado anualmente. Não são os
povos da África, das Américas ou da Ásia
os autores de tais absurdos. Estes alimentariam os seus filhos
com aqueles produtos se isso lhes fosse possível.
Um estudo desse porte teria de considerar cuidadosamente os mecanismos
inconscientes, conscientes, e outros, que induziram os europeus
a se apropriarem de todo o patrimônio da civilização
negro-africana do Egito antigo, e, utilizando-se da falsificação
acadêmica, tentar erradicar a identidade do povo egípcio
daquela época, para em seguida negar ao Egito negro as
ciências, as artes, a filosofia, a religião que ele
criou, atribuindo à Grécia o seu patrimônio
de saber.
É imperativo compreender e reconhecer que a experiência
histórica dos africanos na diáspora tem sido uma
experiência de conteúdo essencialmente racista, que
transcende certas simplificações segundo as quais
a escravidão e as subseqüentes formas de opressão
racista dos povos negros são apenas subprodutos do capitalismo.
Assim, a escravização dos africanos e a desumanização
dos seus descendentes nas Américas teriam ocorrido e estariam
ocorrendo como um determinismo inarredável do processo
econômico da humanidade, o qual teria engendrado a escravidão
à base da "necessidade" do sistema de produção.
Falam de sistema demonstrando uma devoção beata
a algo supostamente sublime, etéreo e intangível.
A "necessidade" dos europeus teria caído sobre
nossas cabeças e nossos destinos qual desígnio irrecorrível
de Deus ou das potências cósmicas. Não menciona,
tal racionalização, que o sistema só tem
existência porque está incorporado em seres humanos
com as suas motivações, aspirações,
interesses e projetos. Sob a perspectiva humana da sociedade ocidental,
têm sido o racismo e seus derivados - o chauvinismo cultural,
o preconceito e a discriminação racial e de cor
- os elementos operativos no dilema existencial dos povos negros.
Em nosso país, os interesses econômicos, a ambição,
o orgulho, o medo, a arrogância se complementam e desempenham
a parte respectiva que lhes cabe no sentido de complicar ainda
mais a teia que emaranha e obscurece a realidade do racismo vigente.
Uma pergunta então é necessária: seria o
racismo apenas um orgulho do branco que se expressa nessa qualidade
de sentimento racial de desdém e menosprezo para com o
negro, sentimento que às vezes toma a forma abstrata do
preconceito, outras vezes atua objetiva e concretamente na forma
de discriminação de caráter racial? Estas
são na verdade expressões ou partes do racismo.
Este, contudo, é mais abrangente: o racismo do tipo praticado
entre nós é a imposição de uma minoria
de origem branco-européia sobre uma maioria negra de origem
africana. Para atingir seus intentos, essa minoria adota as mais
variadas estratégias, as quais incluem desde os instrumentos
mais óbvios aos mais sofisticados e despistadores. Tanto
se faz uso da violência policial direta e brutal, quanto
da violência ideológica sutil, ou da violência
econômica, que é uma forma de genocídio físico
e espiritual. Todas as formas imagináveis de coação
se praticaram e se praticam, inclusive a violência religiosa,
no afã de assegurar a imposição do etnocentrismo
ocidental sobre os afro-brasileiros. A elaboração
da chamada "democracia racial" obedeceu à intenção
de disfarçar os privilégios do segmento minoritário,
detentor exclusivo da renda do país e do poder político
nacional. Fique registrado que muitos brancos íntegros
são ofuscados pela maligna fosforescência da "democracia
racial" e se comportam diante da população
negra da maneira tradicional do racista brasileiro: com postura
paternalista.
ABC
do quilombismo
Na trajetória histórica que esquematizamos nestas
páginas, o quilombismo tem nos fornecido várias
lições. Tentaremos resumi-las num ABC fundamental
que nos ensina que:
a)
Autoritarismo de quase 500 anos já é bastante. Não
podemos, não
devemos e não queremos tolerá-lo por mais tempo.
Sabemos de experiência própria que uma das práticas
desse autoritarismo é o desrespeito brutal da polícia
às famílias negras. Toda a sorte de arbitrariedade
policial se acha fixada nas batidas que ela faz rotineiramente
para manter aterrorizada e desmoralizada a comunidade afro-brasileira.
Assim fica confirmada, diante dos olhos dos próprios negros,
sua condição de impotência e inferioridade,
já que são incapazes até mesmo de se autodefenderem
ou de proteger sua família e os membros de sua respectiva
comunidade. Trata-se de um estado de humilhação
permanente.
b)
Banto denomina-se um povo ao qual pertenceram os primeiros
africanos escravizados que vieram para o Brasil de países
que hoje se chamam Angola, Congo, Zaire, Moçambique e outros.
Foram os bantos os primeiros quilombolas a enfrentar em terras
brasileiras o poder militar do branco escravizador.
c)
Cuidar em organizar a nossa luta por nós mesmos é
um imperativo
da nossa sobrevivência como um povo. Devemos por isso ter
muito cuidado ao fazer alianças com outras forças
políticas, sejam as ditas revolucionárias, reformistas,
radicais, progressistas ou liberais. Toda e qualquer aliança
deve obedecer a um interesse tático ou estratégico,
e o negro precisa obrigatoriamente ter poder de decisão,
a fim de não permitir que a comunidade negra seja manipulada
por interesses de causas alheias à sua própria.
d)
Devemos ampliar sempre a nossa frente de luta, tendo em vista:
1)
os objetivos mais distantes da transformação radical
das estruturas sócio-econômicas e culturais da sociedade
brasileira; 2) os interesses táticos imediatos. Nestes
últimos se inclui o voto do analfabeto e a anistia aos
prisioneiros políticos negros. Os prisioneiros políticos
negros são aqueles que são maliciosamente fichados
pela polícia como desocupados, vadios, malandros, marginais,
e cujos lares são freqüentemente invadidos.
e)
Ewe ou gêge, povo africano de Gana, Togo e Daomé
(Benin); milhões de ewes foram escravizados no Brasil.
Eles são parte do nosso povo e da nossa cultura afro-brasileira.
Ejetar
o supremacismo branco do nosso meio é um dever de todo
democrata. Devemos ter sempre presente que o racismo, isto é,
supremacismo branco, preconceito de cor e discriminação
racial, compõem o fator raça, a primeira contradição
para a população de origem africana na sociedade
brasileira. (Aviso aos intrigantes, aos maliciosos, aos apressados
em julgar: o vocábulo raça, no sentido aqui empregado,
se define somente em termos de história e cultura, e não
em pureza biológica).
f)
Formar os quadros do quilombismo é tão importante
quanto a mobilização e a organização
da comunidade negra.
g)
Garantir ao povo trabalhador negro o seu lugar na hierarquia de
Poder e Decisão, mantendo a sua integridade etno-cultural,
é a motivação básica do quilombismo.
h)
Humilhados que fomos e somos todos os negro-africanos, com todos
devemos manter íntimo contato. Também com organizações
africanas independentes, tanto da diáspora como do continente.
São importantes e necessárias as relações
com órgãos e instituições internacionais
de Direitos Humanos, tais como a ONU e a UNESCO, de onde poderemos
receber apoio em casos de repressão. Nunca esquecer que
sempre estivemos sob a violência da oligarquia latifundiária,
industrial-financeira ou militar.
i)
Infalível como um fenômeno da natureza será
a perseguição do poder branco ao quilombismo. Está
na lógica inflexível do racismo brasileiro jamais
permitir qualquer movimento libertário dos negros majoritários.
Nossa existência física é uma realidade que
jamais pôde ser obliterada, nem mesmo pelo Instituto Brasileiro
de Geografia e Estatística (IBGE) ao manipular os dados
censitários, nos quais erradicou o fator racial e de cor
dos cômputos demográficos. E quanto a nosso peso
político? Simplesmente não existe. Desde a proclamação
da República, a exclusão do voto ao analfabeto significa
na prática a exclusão da população
negra do processo político do país.
j)
Jamais as organizações políticas dos afro-brasileiros
deverão permitir o acesso aos brancos não-quilombistas
a posições com autoridade para obstruir a ação
ou influenciar as tomadas de posição teóricas
e práticas em face da luta.
k)
Kimbundo, língua do povo banto, veio para o Brasil com
os escravos procedentes da África meridional. Essa língua
exerceu notável influência sobre o português
falado neste país.
l)
Livrar o Brasil da industrialização artificial,
tipo "milagre econômico", está nas metas
do quilombismo. Neste esquema de industrialização,
o negro é explorado a um tempo pelo capitalista industrial
e pela classe trabalhadora classificada ou "qualificada".
Como trabalhador "desqualificado" ou sem classe, ele
é duplamente vítima: da raça (branca) e da
classe (trabalhadora "qualificada" e/ou burguesia de
qualquer raça). O quilombismo advoga para o Brasil um conhecimento
científico e técnico que possibilite a genuína
industrialização que represente um novo avanço
de autonomia nacional. O quilombismo não aceita que se
entregue a nossa reserva mineral e a nossa economia às
corporações monopolistas internacionais, porém
tampouco defende os interesses de uma burguesia nacional. O negro-africano
foi o primeiro e o principal artífice da formação
econômica do País e a riqueza nacional pertence a
ele e a todo o povo brasileiro que a produz.
m)
Mancha branca é o que significa a imposição
miscigenadora do branco, implícita na ideologia do branqueamento,
na política imigratória, no mito da "democracia
racial". Tudo não passa de racionalização
do supremacismo branco e do estupro histórico e atual que
se pratica contra a mulher negra.
n)
Nada de mais confusões: se no Brasil efetivamente houvesse
igualdade de tratamento, de oportunidades, de respeito, de poder
político e econômico; se o encontro entre pessoas
de raças diferentes ocorresse espontâneo e livre
da pressão do poder e prestígio sócio-econômico
do branco; se não houvesse outros condicionamentos repressivos
de caráter moral, estético e cultural, a miscigenação
seria um acontecimento positivo, capaz de enriquecer o brasileiro,
a sociedade, a cultura e a humanidade das pessoas.
o)
Obstar o ensinamento e a prática genocidas do supremacismo
branco é um fator substantivo do quilombismo.
p)
Poder quilombista quer dizer: a Raça Negra no Poder. Os
descendentes de africanos somam a maioria da nossa população.
Portanto, o Poder Negro será um poder democrático.
(Reitero aqui a advertência aos intrigantes, aos maliciosos,
aos ignorantes, aos racistas: neste livro a palavra raça
tem exclusiva acepção histórico-cultural.
Raça biologicamente pura não existe e nunca existiu).
q)
Quebrar a eficácia de certos slogans que atravessam a nossa
ação contra o racismo, como aquele da luta única
de todos os trabalhadores, de todo o povo ou de todos os oprimidos,
é um dever do quilombista. Os privilégios raciais
do branco em detrimento do negro constituem uma ideologia que
vem desde o mundo antigo. A pregação da luta "única"
ou "unida" não passa de outra face do desprezo
que nos votam, já que não respeitam a nossa identidade
e nem a especificidade do nosso problema e do nosso esforço
em resolvê-lo.
r)
Raça: acreditamos que todos os seres humanos pertencem
à mesma espécie. Para o quilombismo, raça
significa um grupo humano que possui, relativamente, idênticas
características somáticas, resultantes de um complexo
de fatores históricos e ambientais. Tanto a aparência
física, como igualmente os traços psicológicos,
de personalidade, de caráter e emotividade, sofrem a influência
daquele complexo de fatores onde se somam e se complementam a
genética, a sociedade, a cultura, o meio geográfico,
a história. O cruzamento de diferentes grupos raciais,
ou de pessoas de identidade racial diversas, está na linha
dos mais legítimos interesses de sobrevivência da
espécie humana.
Racismo: é a crença na inerente superioridade de
uma raça sobre outra. Tal superioridade é concebida
tanto no aspecto biológico, como na dimensão psico-sócio-cultural.
Esta é a dimensão usualmente negligenciada ou omitida
nas definições tradicionais do racismo. A elaboração
teórico-científica produzida pela cultura branco-européia
justificando a escravização e a inferiorização
dos povos africanos constitui o exemplo eminente do racismo sem
precedentes na história da humanidade.
Racismo é a primeira contradição social no
caminho do negro. A esta se juntam outras, como a contradição
de classes e de sexo.
s)
Swahili é uma língua de origem banta, influenciada
por outros idiomas, especialmente o árabe. Atualmente,
o swahili é falado por mais de 20 milhões de africanos
da Tanzânia, do Quênia, de Uganda, do Burundi, do
Zaire, e de outros países. Os afro-brasileiros necessitam
aprendê-la com urgência.
Slogan do poder público e da sociedade dominante, no Brasil,
condenando reiterada e indignadamente o racismo, se tornou um
recurso eficaz encobrindo a operação racista e discriminatória
sistemática, de um lado, e de outro lado servindo como
uma arma apontada contra nós com a finalidade de atemorizar-nos,
amortecendo ou impedindo que um movimento coeso do povo afro-brasileiro
obtenha a sua total libertação.
t)
Todo negro ou mulato (afro-brasileiro) que aceita a "democracia
racial" como uma realidade, e a miscigenação
na forma vigente como positiva, está traindo a si mesmo,
e se considerando um ser inferior.
u)
Unanimidade é algo impossível no campo social e
político. Não devemos perder o nosso tempo e a nossa
energia com as críticas vindas de fora do movimento quilombista.
Temos de nos preocupar e criticar a nós próprios
e às nossas organizações, no sentido de ampliar
a nossa consciência negra e quilombista rumo ao objetivo
final: a ascensão do povo afro-brasileiro ao Poder.
v)
Vênia é o que não precisamos pedir às
classes dominantes para reconquistarmos os frutos do trabalho
realizado pelos nossos ancestrais africanos no Brasil. Nem devemos
aceitar ou assumir certas definições, "científicas"
ou não, que pretendem situar o comunalismo africano e o
ujamaaísmo como simples formas arcaicas de organização
econômica e/ou social. Esta é outra arrogância
de fundo eurocentrista que implicitamente nega às instituições
nascidas na realidade histórica da África a capacidade
intrínseca de desenvolvimento autônomo relativo.
Nega a tais instituições a possibilidade de progresso
e atualização, admitindo que a ocupação
colonizadora do Continente Africano pelos europeus determinasse
o concomitante desaparecimento dos valores, princípios
e instituições africanas. Estas corporificariam
formas não-dinâmicas, exclusivamente quietistas e
imobilizadas. Tal visão petrificada da África e
de suas culturas é uma ficção puramente cerebral.
O quilombismo pretende resgatar dessa definição
negativista o sentido de organização sócio-econômica
concebido para servir à existência humana; organização
que existiu na África e que os africanos escravizados trouxeram
e praticaram no Brasil. A sociedade brasileira contemporânea
pode se beneficiar com o projeto do quilombismo, uma alternativa
nacional que se oferece em substituição ao sistema
desumano do capitalismo.
x)
Xingar não basta. Precisamos é de mobilização
e de organização da gente negra, e de uma luta enérgica,
sem pausa e sem descanso, contra as destituições
que nos atingem. Até que ponto vamos assistir impotentes
à cruel exterminação dos nossos irmãos
e irmãs afro-brasileiros, principalmente das crianças
negras deste país?
y)
Yorubás (Nagô) somos também em nossa africanidade
brasileira. Os iorubás são parte integrante do nosso
povo, da nossa cultura, da nossa religião, da nossa luta
e do nosso futuro.
z)
Zumbi: fundador do quilombismo.
Propostas de ação para o Governo Brasileiro
O programa de ação quilombista incorpora, devidamente
atualizadas, as seguintes propostas apresentadas por este autor
ao Colóquio do 2º Festival Mundial de Artes e Culturas
Negras e Africanas (Festac), realizado em Lagos, Nigéria,
em 1977 (Nascimento, 1978, 2002). Naquela ocasião, o autor
propôs ao Colóquio recomendar que o Governo Brasileiro
1)
permita e estimule a livre e aberta discussão dos problemas
dos descendentes de africanos no país; e que encoraje e
financie pesquisas sobre a posição econômica,
social e cultural ocupada pelos afro-brasileiros dentro da sociedade
brasileira, em todos os níveis;
2) localize e publique documentos e outros fatos e informações
possivelmente existentes em arquivos privados, cartórios,
arquivos de câmara municipal de velhas cidades do interior,
referentes ao tráfico negreiro, à escravidão
e à abolição; em resumo, qualquer dado que
possa ajudar a esclarecer e aprofundar a compreensão da
experiência do africano escravizado e de seus descendentes;
3) inclua quesitos sobre raça ou etnia em todos os futuros
censos demográficos; que em toda informação
que dito governo divulgue, tanto para consumo doméstico
como internacional a respeito da composição demográfica
do país, não se omita o aspecto da origem racial
/ étnica;
4) inclua um ativo e compulsório currículo sobre
a história e as culturas dos povos africanos, tanto aqueles
do continente como os da diáspora; tal currículo
deve abranger todos os níveis do sistema educativo: elementar,
médio e superior;
5) tome medidas ativas para promover o ensino e o uso prático
de línguas africanas, especialmente as línguas ki-swahili
e iorubá; o mesmo em relação aos sistemas
religiosos africanos e seus fundamentos artísticos; que
o dito governo promova válidos programas de intercâmbio
cultural com as nações africanas;
6) estude e formule compensações aos afro-brasileiros
pelos séculos de escravização criminosa e
decênios de discriminação racial depois da
abolição; para esse fim deverá drenar recursos
financeiros e outros, compulsoriamente originados da Agricultura,
do Comércio e da Indústria, setores que historicamente
têm sido beneficiados com a exploração do
povo negro. Tais recursos constituirão um fundo destinado
à construção de moradias, que satisfaçam
às exigências da condição humana, em
substituição às atuais habitações
segregadas onde vive a maioria dos afro-brasileiros: favelas,
cortiços, mocambos, porões, cabeças-de-porco,
e assim por diante. O fundo sustentaria também a distribuição
de terras no interior do país para os negros engajados
na produção agropecuária;
7) remova os objetos da arte afro-brasileira assim como os de
sentido ritual encontrados hoje em instituições
de polícia, de psiquiatria, história e etnografia;
e que o dito governo estabeleça museus de arte com finalidade
dinâmica e pedagógica de valorização
e respeito devidos à cultura afro-brasileira; de preferência,
tais museus se localizariam nos estados com significativa população
negra, tais como Bahia, Maranhão, Pernambuco, Alagoas,
Minas Gerais, Rio de Janeiro, São Paulo, Sergipe, Rio Grande
do Sul;
8) conceda efetivo apoio, material e financeiro, à existentes
e futuras associações afro-brasileiras com finalidade
de pesquisa, informação e divulgação
nos setores de educação, arte, cultura e posição
sócio-econômica da população afro-brasileira.
9) tome medidas rigorosas e apropriadas ao efetivo cumprimento
da lei Afonso Arinos, fazendo cessar o papel burlesco que tem
desempenhado até agora;
10) tome ativas providências, ajuste as realidades do país,
para que de nenhuma forma se permita ou possibilite a discriminação
racial ou de cor no emprego, garantindo a igualdade de oportunidade
que atualmente inexiste entre brancos, negros e outras nuanças
étnicas.
11) exerça seu poder através de uma justa política
de redistribuição da renda, tornando impraticável
que, por causa da profunda desigualdade econômica imperante,
o afro-brasileiro seja discriminado, embora sutil e indiretamente,
em qualquer nível do sistema educativo, seja o elementar,
o médio ou o universitário.
12) estimule ativamente o ingresso de negros no Instituto Rio
Branco, órgão de formação de diplomatas
pertencente ao Ministério de Relações Exteriores.
13) nomeie negros para o cargo de embaixador e diplomata para
as Nações Unidas e junto aos Governos de outros
países do mundo.
14) estimule a formação de negros como oficiais
superiores das Forças Armadas (Exército, Marinha
e Aeronáutica) com promoções no serviço
ativo até os postos de general, almirante, brigadeiro e
marechal.
15) nomeie negros para os altos escalões do Governo Federal
em seus vários ministérios e outras repartições
do Executivo, incluindo órgãos superiores como o
Conselho Federal de Cultura, o Conselho Federal de Educação,
o Conselho de Segurança Nacional, o Tribunal de Contas.
16) estimule e encoraja a formação e o desenvolvimento
de uma liderança política negra, representando os
interesses específicos da população afro-brasileira
no Senado Federal, na Câmara dos Deputados, nas Assembléias
Legislativas Estaduais e nas Câmaras Municipais; que o dito
Governo nomeie negros para os cargos de juizes estaduais e federais,
inclusive para o Supremo Tribunal Federal, Superior Tribunal Eleitoral,
Superior Tribunal Militar, Superior Tribunal do Trabalho e o Tribunal
Federal de Recursos.
17) concretize sua tão proclamada "amizade" com
a África independente e sua tão freqüentemente
manifestada posição anticolonialista, dando efetivo
apoio diplomático e material aos legítimos movimentos
de libertação nacional de Zimbabwe, Namíbia
e África do Sul.
Alguns princípios e propósitos do quilombismo
1.
O Quilombismo é um movimento político dos negros
brasileiros, objetivando a implantação de um Estado
Nacional Quilombista, inspirado no modelo da República
dos Palmares, no século XVI, e em outros quilombos que
existiram e existem no País.
2.
O Estado Nacional Quilombista tem sua base numa sociedade livre,
justa, igualitária e soberana. O igualitarismo democrática
quilombista é compreendido no tocante a sexo, sociedade,
religião, política, justiça, educação,
cultura, condição racial, situação
econômica, enfim, todas as expressões da vida em
sociedade. O mesmo igualitarismo se aplica a todos os níveis
do Poder e de instituições públicas e privadas.
3.
A finalidade básica do Estado Nacional Quilombista é
a de promover a felicidade do ser humano. Para atingir sua finalidade,
o quilombismo acredita numa economia de base comunitário-cooperativista
no setor da produção, da distribuição
e da divisão dos resultados do trabalho coletivo.
4.
O quilombismo considera a terra uma propriedade nacional de uso
coletivo. As fábricas e outras instalações
industriais, assim como todos os bens e instrumentos de produção,
da mesma forma que a terra, são de propriedade e uso coletivo
da sociedade. Os trabalhadores rurais ou camponeses trabalham
a terra e são eles próprios os dirigentes das instituições
agropecuárias. Os operários da indústria
e os trabalhadores de modo geral são os produtores dos
objetos industriais e os únicos responsáveis pela
orientação e gerência de suas respectivas
unidades de produção.
5. No quilombismo o trabalho é um direito e uma obrigação
social, e os trabalhadores, que criam a riqueza agrícola
e industrial da sociedade quilombista, são os únicos
donos do produto do seu trabalho.
6. A criança negra tem sido a vítima predileta e
indefesa da miséria material e moral imposta à comunidade
afro-brasileira. Por isso, ela constitui a preocupação
urgente e prioritária do quilombismo. Atendimento pré-natal,
amparo à maternidade, creches, alimentação
adequada, moradia higiênica e humana, são alguns
dos itens relacionados à criança negra que figuram
no programa de ação do movimento quilombista.
7. A educação e o ensino em todos os graus - elementar,
médio e superior - serão completamente gratuitos
e abertos sem distinção a todos os membros da sociedade
quilombista. A história da África, das culturas,
das civilizações e das artes africanas terão
um lugar eminente nos currículos escolares. Criar uma Universidade
Afro-Brasileira é uma necessidade dentro do programa quilombista.
8. Visando o quilombismo a fundação de uma sociedade
criativa, ele procurará estimular todas as potencialidades
do ser humano e sua plena realização. Combater o
embrutecimento causado pelo hábito, pela miséria,
pela mecanização da existência e pela burocratização
das relações humanas e sociais, é um ponto
fundamental. As artes em geral ocuparão um espaço
básico no sistema educativo e no contexto das atividades
sociais.
9. No quilombismo não haverá religiões e
religiões populares, isto é, religião da
elite e religiões do povo. Todas as religiões merecem
igual tratamento de respeito e de garantias de culto.
10. O Estado quilombista proíbe a existência de um
aparato burocrático estatal que perturbe ou interfira com
a mobilidade vertical das classes trabalhadoras e marginalizadas
em relação direta com os dirigentes. Na relação
dialética dos membros da sociedade com as suas instituições
repousa o sentido progressista e dinâmico do quilombismo.
11. A revolução quilombista é fundamentalmente
anti-racista, anticapitalista, antilatifundiária, antiimperialista
e antineocolonialista.
12. Em todos os órgãos do Poder do Estado Quilombista
- Legislativo, Executivo e Judiciário - a metade dos cargos
de confiança, dos cargos eletivos, ou dos cargos por nomeação,
deverão, por imperativo constitucional, ser ocupados por
mulheres. O mesmo se aplica a todo e qualquer setor ou instituição
de serviço público.
13. O quilombismo considera a transformação das
relações de produção, e da sociedade
de modo geral, por meios não-violentos e democráticos,
uma via possível.
14. É matéria urgente para o quilombismo a organização
de uma instituição econômico-financeira em
moldes cooperativos, capaz de assegurar a manutenção
e a expansão da luta quilombista a salvo das interferências
controladoras do paternalismo ou das pressões do Poder
econômico.
15. O quilombismo essencialmente é um defensor da existência
humana e, como tal, ele se coloca contra a poluição
ecológica e favorece todas as formas de melhoramento ambiental
que possam assegurar uma vida saudável para as crianças,
as mulheres e os homens, os animais, as criaturas do mar, as plantas,
as selvas, as pedras e todas as manifestações da
natureza.
16. O Brasil é signatário da Convenção
Internacional para a Eliminação de Todas as Formas
de Discriminação Racial, adotada pela Assembléia
Geral das Nações Unidas em 1965. No sentido de cooperar
para a concretização de objetivos tão elevados
e generosos, e tendo em vista o artigo 9, números 1 e 2
da referida Convenção, o quilombismo contribuirá
para a pesquisa e a elaboração de um relatório
ou dossiê bianual, abrangendo todos os fatos relativos à
discriminação racial ocorridos no País, a
fim de auxiliar os trabalhos do Comitê para a Eliminação
da Discriminação Racial das Nações
Unidas.
Semana da memória afro-brasileira
Esta Semana está sendo proposta pela necessidade do negro
de recuperar a sua memória. Durante esta Semana serão
focalizados e iluminados os sucessos passados nos quais foram
protagonistas aqueles 300 milhões de africanos retirados,
sob violência, de suas terras e trazidos acorrentados para
o continente americano. Através de celebrações
anuais, a comunidade negra não só honrará
os antepassados, como reforçará a sua coesão
e identidade. E transmitirá às novas gerações
um exemplo de amor à história do nosso povo, auxiliando-as
a ter uma visão mais clara e verdadeira do papel fundamental
cumprido pelos escravos africanos na construção
deste País. Isto só infundirá aos jovens
de agora e do futuro um orgulho em lugar da vergonha que a sociedade
dominante tem procurado infiltrar na consciência dos negros,
como se fosse a única herança deixada por seus ancestrais.
A Semana deve aliar aos aspectos comemorativos uma constante pesquisa,
crítica e reflexão sobre o passado e o presente
das condições de vida da população
de origem africana no Brasil. Isto contribuirá para ampliar
e fortalecer o quilombismo sem sua filosofia, teoria e prática
de libertação. A Semana implica também um
estímulo às organizações negras existentes,
sem discriminar nenhuma delas por causa dos seus objetivos declarados.
Tanto aquelas que perseguem finalidades recreativas ou beneficentes,
como as outras de sentido cultural, social ou político,
se encontram todas interessadas no destino e na melhoria da situação
da família afro-brasileira. Portanto, se inserem na mesma
perspectiva quilombista ampla que estamos tentando sistematizar.
Basicamente, esta "Semana da Memória" está
sendo concebida como uma ferramenta operativa no campo da ação
(mobilização e organização), combinada
ao setor da especulação, da teoria, da formulação
de princípios, das análises, definições
e outras ponderações. Enfim, a Semana deve ser um
exercício de emancipação e nunca uma comemoração
convencional, estática e retórica, que proponha
unicamente a evocação de fatos, datas e nomes do
passado. Estudar e lembrar os feitos dos antepassados deve constituir
um acontecimento inspirador que estimule a ação
transformadora do presente. Rumo ao futuro, ou seja, o oposto
da contemplação saudosista, autoglorificadora do
pretérito, ou da motivação de cenas de autoflagelação.
Resgatar nossa memória significa resgatarmos a nós
mesmos do esquecimento, do nada e da negação, e
reafirmarmos a nossa presença ativa na história
pan-africana e na realidade universal do seres humanos.
Como norma de procedimento, a Semana deve ser promovida, de preferência,
por organizações afro-brasileiras. Entretanto, poderá
também ser realizada por escolas públicas ou privadas
que atualmente se interessem pelo progresso cívico da comunidade
afro-brasileira. Neste caso, como de modo geral tais escolas não
são dirigidas por homem negro ou mulher negra, os afro-brasileiros
presentes devem estar alertas a fim de impedir que os fatos históricos
e os eventos da vida negro-africana sejam manipulados ou distorcidos,
seja por malícia, ignorância ou negligência.
As famílias negras, onde não existir organização
afro-brasileira ou escola pública ou privada interessada
na vida negra, devem preencher o papel de realizadores da Semana.
Reiteramos que uma Semana da Memória jamais deve esvaziar
o seu conteúdo intrínseco de valores negro-africanos
de história, cultura, artes, seccionando-o do contexto
sócio-político e econômico onde os povos de
origem africana se movimentaram, produziram, lutaram e fizeram
a história que até o presente não figura,
em toda a sua extensão e importância, na História
convencional ou oficial do Brasil.
A proposta que ofereço à consideração
dos meus irmãos e irmãs negros de "Semana da
Memória" tem seu encerramento a 20 de novembro de
cada ano, aniversário da morte de Zumbi e Dia Nacional
da Consciência Negra instituído pelo movimento negro
brasileiro a partir de proposta oriunda do Rio Grande do Sul.
Assim, a Semana principia a 14 de novembro e obedecerá
ao seguinte calendário:
Dia
14 (1º dia): África: suas civilizações
na antigüidade, o Egito, a Etiópia, o Sudão.
Os impérios mais recentes: Songai, Asante, Iorubá,
e outros. Nesta celebração se incluem referências
às formas de organização africana da família
(matriarcado), sociedade, economia e do Estado. As artes, as ciências,
a tecnologia: as pirâmides egípcias, a matemática,
a engenharia, a medicina, as pinturas rupestres e as construções
urbanas em Zimbábue, as esculturas de Nok, Ifé,
Benin, e assim por diante.
Dia
15 (2º dia): As primeiras incursões portuguesas no
território africano no século XIV. Logo depois,
a invasão colonial da África por Portugal, Espanha,
França, Inglaterra, Holanda, Bélgica, Itália,
Alemanha. A escravização dos africanos: as técnicas
de captura utilizadas pelos bandidos europeus. As longas caminhadas
através das florestas até à costa atlântica.
A enorme taxa de mortalidade durante o trajeto. Os barracões
e depósitos na costa. O batismo compulsório.
Dia
16 (3º dia): O embarque dos africanos nos tumbeiros: os horrores
a bordo: fome, sede, epidemias, imobilidade do corpo, falta de
ar; a alta taxa de mortalidade; os africanos atirados vivos ao
mar; outras formas de suplício e assassínio. Os
portos brasileiros de desembarque.
Dia
17 (4º dia): Os mercados de escravos; maneira como as "peças"
eram oferecidas ao público comprador, e os brancos examinavam
os africanos como se fossem animais. As vendas e as compras atendendo
os pontos focais de concentração econômica:
produção do açúcar, do algodão,
da mineração, do café, do cacau, do gado,
do fumo, e assim por diante.
Dia
18 (5º dia): Vida escrava, rural e urbana. Os castigos e
os instrumentos de tortura. O estupro da mulher africana. A imposição
religiosa católica. A persistência das danças,
cantos, instrumentos musicais e folguedos trazidos da África
pelos escravos. As religiões africanas e as línguas
faladas pelos escravos. Formas de recusa à escravidão:
suicídio, banzo, fuga, assassínio do senhor, e outras.
Dia
19 (6º dia): As revoltas e os quilombos. O papel dos valores
africanos da resistência: religião, arte, folclores,
conhecimentos técnicos de fundição do ferro,
do bronze, de agricultura. A importância na resistência
de instituições religiosas a exemplo da Casa das
Minas (Maranhão), do Axé do Opô Afonjá
(Bahia). Papel das instituições laicas após
a abolição: Frente Negra Brasileira, Teatro Experimental
do Negro, União dos Homens de Cor, Associação
Cultural dos Negros, Floresta Aurora, e todas as outras organizações
negras que existiram e existem.
Dia
20 (7º dia): O Dia da Consciência Negra deve resumir
tudo aquilo que tiver ocorrido nos dias anteriores. Ênfase
à figura de Zumbi, o primeiro militante do pan-africanismo
e da luta por liberdade em terras brasileiras. Zumbi, consolidador
da luta palmarista, selando com sua morte em plena batalha a determinação
libertária do povo negro-africano escravizado, é
o fundador, na prática, do conceito científico histórico-cultural
do quilombismo. Quilombismo continuado por outros heróis
da história negra: Luísa Mahin e seu filho Luís
Gama, Chico-Rei, os enforcados da Revolta dos Alfaiates, dos levantes
dos Malês, da Balaiada, o Dragão do Mar, Karocango,
João Cândido, e os milhões de quilombolas
assassinados em todas as partes do nosso território onde
houve o infame cativeiro. Na celebração de encerramento
da Semana da Memória Negra deve-se dar todo o destaque
aos programas e projetos das entidades e da comunidade, tendo
em vista um futuro melhor para os afro-brasileiros. O último
evento da Semana deve, de preferência, acontecer ao ar livre,
numa concentração da comunidade negra e das pessoas
de qualquer origem interessadas em nossas atividades. Durante
todo o decorrer da Semana, a retórica acadêmica deverá
ser radicalmente proibida.
Axé, Zumbi!
BIBLIOGRAFIA
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R. A. N. Escola de Samba Quilombo.
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& Isnard (1978). Escola de samba: Árvore que esqueceu
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QUARTIM,
João (1971). Dictatorship and armed struggle in Brazil,
trad. David Fernbach. Nova Iorque: Monthly Review Press.
Transcrito do livro O Quilombismo, 2ª ed. (Brasília/ Rio:
Fundação Cultural Palmares/ OR Editora, 2002).
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