Abdias
fala da Frente Negra Brasileira
Minhas primeiras experiências de luta foram na Frente Negra
Brasileira. Alguns dos dirigentes da FNB desde a década
de vinte se esforçavam tentando articular um movimento.
Houve, assim, um projeto de reunir o Congresso da Mocidade Negra,
em 1928, em São Paulo, o que não chegou a se concretizar.
Somente em 1938 eu e outros cinco jovens negros realizamos o I
Congresso Afro-Campineiro e, em 1950, o Teatro Experimental do
Negro promoveu o I Congresso do Negro Brasileiro, no Rio de Janeiro.
As pessoas e as idéias já vinham de antes, mas foi
nos inícios dos anos trinta que o movimento se institucionalizou
na forma da Frente Negra Brasileira. Entre seus fundadores estavam
Arlindo Veiga dos Santos e José Correia Leite e, como movimento
de massas, foi a mais importante organização que
os negros lograram após a abolição da escravatura
em 1888.
A Frente fazia protestos contra a discriminação
racial e de cor em lugares públicos... sob a perspectiva
de integrar os negros na sociedade nacional. Dessa forma combatia
a FNB os hotéis, bares, barbeiros, clubes, guarda-civil,
departamentos de polícia, etc. que vetavam a entrada ao
negro, o que lembrava muito o movimento pelos direitos civis dos
negros norte-americanos.
Uma
perspectiva que eu hoje critico. Minhas lembranças não
são muito seguras, mas acho que o movimento ia além
das reivindicações citadas. Eu não podia
me envolver profundamente na ação, pois estava servindo
o exército, cujo regulamento disciplinar proibia qualquer
participação em atividades sociais e políticas.
Assim minha participação era mais simbólica
e espiritual.
Mas
me lembro de O Clarim da Alvorada, o jornal que transcrevia notícias
e artigos do movimento que Marcus Garvey, o grande negro jamaicano,
desencadeara nos Estados Unidos sob o lema da Volta à África.
Apesar da barreira da língua, da pobreza dos meios de comunicação,
a FNB permanecia alerta a todos os gestos emancipacionistas acontecidos
em outros países.
Foi
uma vanguarda com o objetivo de preparar o negro para assumir
uma posição política e econômica na
representação do povo brasileiro ao Congresso Nacional.
E o movimento se espalhou de São Paulo para outros Estados
com significativa população negra: Bahia, Pernambuco,
Rio Grande do Sul, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Maranhão...
O chamado Estado Novo ou a ditadura de Getúlio Vargas,
instaurada em 1937, fechou a FNB juntamente com todos os partidos
políticos então existentes.
A Frente, como qualquer outra instituição de massas,
teve seus problemas internos de orientação e liderança,
o que aliás é um bom índice da sua vitalidade.
O dirigente Arlindo Veiga dos Santos se achava ligado ao Movimento
Patrianovista, de orientação de direita, enquanto
José Correia Leite se filiava ao pensamento socialista.
Tal polarização levaria inevitavelmente ao fracionamento
que ocorreu. Entretanto, não creio que o fato teve qualquer
ligação ou influência com o Partido Comunista.
- trecho do depoimento de Abdias Nascimento, publicado no livro
Memórias do Exílio (Lisboa: Arcádia, 1976).