ABDIAS
NASCIMENTO E O SURGIMENTO DE UM
PAN-AFRICANISMO CONTEMPORÂNEO GLOBAL
Carlos
Moore Wedderburn
Meu
primeiro encontro com Abdias do Nascimento, amigo e companheiro
intelectual há quatro décadas, aconteceu em Havana,
em 1961, quando a revolução cubana ainda não
havia completado três anos de existência. Eu tinha
19 anos, Abdias, 47. Para mim, esse encontro significou o descobrimento
do mundo negro da América Latina. Para ele, essa visita
a Cuba abria uma interrogação quanto aos métodos
que se deveriam empregar para vencer quatro séculos de
racismo surgido da escravidão. E se me atrevo a prefaciar
este primeiro volume de suas Obras, é apenas porque no
tempo dessa nossa longa e intensa amizade forjou-se uma parceria
política na qual invariavelmente participamos de ações
conjuntas no Caribe, na América do Norte e no Continente
Africano. As duas obras aqui apresentadas tratam de eventos acontecidos
no período de seu exílio político (1968-1981)
e dos quais fui testemunha. É, portanto, a partir dessa
posição de amigo, de companheiro intelectual e de
testemunha que prefacio este volume, sabendo que deste modo assumo
uma pesada responsabilidade crítica tanto para com os meus
contemporâneos quanto em relação às
gerações vindouras.
Duas obras compõem este volume. O traço que as une
é o fato de os acontecimentos narrados com precisão
de jornalista em Sitiado em Lagos decorrerem diretamente das colocações
políticas e da leitura sócio-histórica sobre
a natureza da questão racial no Brasil que se encontram
sintetizadas em O genocídio do negro brasileiro. Essas
obras foram escritas da forma que caracteriza o discurso "nascimentista"
- de modo direto, didático, e num tom forte, à maneira
de um grito. São exposições claras, que falam
por si, logo não precisam que eu as explique. Minha tarefa,
pois, será: a) reconstituir o contexto histórico
mundial no qual foram compostas, b) situar Abdias do Nascimento
dentro desse quadro geral, c) mostrar as contribuições
e inovações das idéias por ele difundidas
e defendidas em três continentes no espaço de uma
década.
Para melhor apreender a contribuição "nascimentista",
é necessário esclarecer, de início, que se
trata, por um lado, de um discurso voluntarista e desconstrutor,
e, por outro, de uma ação de síntese e renovação
das diferentes vertentes que compõem o movimento pan-africanista
mundial, no intento de adequá-las às exigências
do mundo contemporâneo. É um discurso-prática
em que ação e reflexão avançam em
paralelo, entrechocando-se, recombinando-se seletivamente e partindo
para novas desconstruções.
O
primeiro grito internacional de Abdias do Nascimento
A incômoda voz de Abdias do Nascimento irrompeu pela primeira
vez no âmbito internacional quando ele enviou sua "carta-declaração-manifesto"
ao 1º Festival Mundial das Artes e das Culturas Negras, realizado
em Dacar, Senegal, em 1966 [reproduzida neste volume como Apêndice
de Sitiado em Lagos]. Foi nessa cúpula de intelectuais
da vertente pan-africana chamada de "Négritude"
que, com este documento, pela primeira vez se abriu uma importante
brecha ideológica e acadêmica com relação
à natureza intrínseca da sociedade brasileira e
do governo no poder no Brasil. Por extensão, também
se abriu um espaço de análise crítica das
estruturas sócio-raciais das sociedades latino-americanas
e das práticas eurocêntricas de seus governos. Até
então, poucas e débeis eram as opiniões que
contrariavam a visão comparativa dominante, pela qual as
sociedades latino-americanas eram consideradas paraísos
raciais, enquanto a sociedade norte-americana era enxergada como
verdadeiro inferno racial. O portento da posição
de Nascimento nesse foro do qual ele esteve ausente, assim como
outros valores intelectuais negros do Brasil, foi tanto maior
porquanto seu afastamento decorreu de uma decisão do governo
militar brasileiro da época, que enviou a Dacar os "seus"
representantes, entre porta-vozes oficiais brancos e artistas
afrobrasileiros, alguns autênticos e outros "folclóricos".
É necessário lembrar que essa cúpula da Négritude
foi a culminação de uma decisão de intelectuais
negros do mundo inteiro reunidos pela primeira vez em Paris, em
1957, e depois em Roma, em 1959. Isso foi bem antes da independência
efetiva do Continente Africano que, com a exceção
de Etiópia, Libéria, Gana e Guiné, ocorreu
a partir de 1960. Lembremos também que, nesses dois foros
pan-africanistas da Négritude, as figuras marcantes foram
vultos do gabarito de um Aimé Césaire, Frantz Fanon,
Léon Damas, Richard Wright, Cheikh Anta Diop, Léopold
Sédar Senghor e Alioune Diop.
O 1º Festival Mundial das Artes e das Culturas Negras de Dacar
foi a primeira cúpula de intelectuais pan-africanistas
em terra africana; daí sua transcendência simbólica.
A declaração-manifesto de Abdias teve tal repercussão
sobre os debates do Colóquio do Festival que foi imediatamente
publicada na revista Présence Africaine, importante órgão
do movimento pan-africano da Négritude, editada em Paris.
A partir daí as propostas e denúncias contidas nesse
detalhado documento não parariam de rodar e de incomodar.
Cumpre ressaltar que, no momento desse manifesto, o Brasil estava
sob as botas de um regime militar que não vacilava em fazer
desaparecer seus opositores. Por isso, não surpreende que,
apenas dois anos após sua corajosa denúncia da "democracia
racial" fardada, Nascimento tivesse de fugir do Brasil e
se refugiar nos Estados Unidos, onde morou no exílio até
1981.
Abdias
do Nascimento e a "Poder Negro" nos Estados Unidos
Quando Abdias do Nascimento chegou aos Estados Unidos, em 1968,
aquele país estava em meio a uma grave convulsão
sócio-racial criada pelo crescimento de várias tendências
de um amplo movimento conhecido pelo nome de Black Power (Poder
Negro). Basicamente, esse movimento foi produto do ativismo mobilizador
de líderes carismáticos como Martin Luther King
(assassinado em 1965), Robert Williams (exilado em Cuba em 1961),
Huey P. Newton (fundador dos Panteras Negras), Stokely Carmichael
(líder estudantil que cunhou o termo Poder Negro, e que
mais tarde adotaria o nome de Kwame Touré) e Maulana Ron
Karenga (dirigente do movimento US). A divisão era a característica
predominante dessas correntes de reivindicação afro-norte-americanas,
embora elas tenham impulsionado causas similares no mundo inteiro,
incluindo os movimentos feministas e o próprio movimento
estudantil de maio de 1968 na França. Nascimento não
perdeu tempo em tomar posição a favor dessas lutas
sócio-raciais nos Estados Unidos, embora sob o perigo de
ser expulso. Seu gesto provocou uma reação de carinho
desses movimentos pelo solitário exilado negro vindo de
uma terra que até então desconheciam. Na realidade,
foi na pessoa de Abdias do Nascimento, e graças à
flexibilidade que o caracteriza tanto na ação política
quanto na vida privada, que se estabeleceu pela primeira vez uma
ponte entre o movimento social negro norte-americano e aquele
que surgia, embora balbuciante, na América Latina, principalmente
no Brasil. Homem simples, flexível, alérgico por
natureza aos dogmatismos e sectarismos, espontâneo, alegre
- sem dúvida, essas características, que Nascimento
carregou por onde tenha passado, lhe permitiram desempenhar um
papel de conciliador num momento em que o movimento negro norte-americano,
dividido em meia dúzia de correntes antagônicas,
chegou até a protagonizar dramáticas situações
sangrentas. (Por exemplo, a luta feroz entre o partido dos Panteras
Negras, marxista, e o movimento nacionalista negro US, de Maulana
Karenga, causou a morte de várias dezenas de valiosos militantes
dos dois lados.)
O quadro não era menos complexo - e sangrento - na África,
no Caribe e no Pacífico, onde correntes pan-africanistas
contrárias disputavam o poder dentro de movimentos de libertação
nacional com aspirações a dirigir futuros Estados
(MPLA, FNLA e UNITA em Angola; PAC, ANC, Movimento da Consciência
Negra, de Steve Biko, e Inkhata na África do Sul; Frelimo
e Renamo em Moçambique; facções rivais no
interior do PAIGC, na Guiné-Bissau). De maneira geral,
o esquema da situação mundial nas décadas
de 1950, 1960, 1970 e 1980 estava definido pela Guerra Fria entre
os blocos ideológicos comunista e capitalista. A partir
dos anos 40, essa situação já começara
a causar verdadeiros estragos no seio de todas as vertentes do
movimento pan-africanista mundial.
O
pan-africanismo como proposta
A grande Revolução do Haiti, em 1804, desencadeou
de modo espetacular o movimento pan-africanista mundial, que se
intensificou nas Américas a partir das aspirações
abolicionistas e pós-abolicionistas e da luta contra a
tutela colonial e imperial na África, no Caribe e no Pacífico.
Esse movimento começou a se articular como posicionamento
político e intelectual no fim do século XIX (Edward
W. Blyden, Booker T. Washington, W. E. B. Du Bois) e celebrou
em Londres, em 1900, a sua primeira Conferência, sob a liderança
de Sylvester Williams. A partir dos anos 20, uma segunda e poderosa
vertente, fundada por Marcus Garvey, ganhou força em escala
mundial como nenhuma outra. O garveísmo se batia pelo estabelecimento
de um bastião econômico, político e cultural
soberano na África continental e pela constituição
paralela de forças políticas e econômicas
nacionais na diáspora das Américas, do Caribe e
do Pacífico. Uma terceira vertente, a da Négritude,
surgiu no mundo francófono, também nos anos 20,
a partir do trabalho mobilizador e da teorização
da racialidade como resposta ao racismo por intelectuais militantes
como Aimé Césaire, Léon Damas, Léopold
Sédar Senghor, René Maran, Lamine Senghor, Tiemoko
Garan Kouyate, Kojo Touvalou Houenou e os intelectuais da Harlem
Renaissance nos Estados Unidos.
Abdias
do Nascimento e a guerra fria
Quando Abdias do Nascimento entrou em contato com as três
vertentes do pan-africanismo mundial, elas estavam fortemente
divididas em facções pró-comunistas, pró-capitalistas
e "nacionalistas". Dado o apogeu do comunismo em escala
mundial - a existência de um poderoso bloco de Estados comunistas
no Leste Europeu e na Ásia, o inquestionável prestígio
e a influência internacional da Revolução
marxista em Cuba e o fato de os próprios Estados progressistas
e movimentos de libertação na África, no
Caribe e no Pacífico terem optado pelo marxismo como ideologia
- , as idéias marxistas tinham uma preponderância
esmagadora no seio das três vertentes pan-africanistas.
Esse era o quadro mundial em que Nascimento se inseriu ao sair
do Brasil em 1968, e foi dentro desses parâmetros convulsos
que ele teve de desenvolver sua própria luta por mais de
uma década. Que posições ele tomou nessa
teia de aranha ideológica e política? Minoritária,
desprezada como tendência de negros "racistas"
e "incultos", a facção "nacionalista"
(Patrice Lumumba, Aimé Césaire, Cheikh Anta Diop,
Malcolm X, Steve Biko), com a qual Nascimento se identificou sem
vacilar, estava sob cerco em todos os cantos nas décadas
de 1960, 1970 e 1980.
A rejeição dos blocos ideológicos, quaisquer
que fossem, levou Nascimento naturalmente para a posição
da "terceira via", surgida em 1955 a partir da Conferência
de Bandung. A "linha de Bandung", trazida pelos países
afro-asiáticos recém-independentes, consistiu na
elaboração de uma política exterior de "não-alinhamento"
e de "neutralismo positivo" entre o comunismo e o capitalismo.
Nascimento se identificou de maneira natural com essa corrente,
não tanto por ser ele próprio de posição
centrista, mas por rechaçar vigorosamente tanto o comunismo
quanto o capitalismo como soluções para os problemas
específicos dos povos de raça negra.
A
'oficialização' do projeto pan-africanista
As décadas de 1960 e 1970 formaram o grande período
da descolonização do continente africano, do Caribe
e do Pacífico melanésico (Vanuatu, Fiji, Papua Nova
Guiné, Ilhas Salomão, Timor Leste). No Caribe, o
projeto federacionista, impulsionado principalmente pelo pensador
pan-africanista Eric Williams, de Trinidad, abortou, e os países
anglófonos da região se tornaram independentes individualmente
num clima de antagonismo mútuo. Na África, também,
todos os projetos federacionistas foram a pique. Por sua vez,
quando foi formada a Organização da Unidade Africana
(OUA), em Adis Abeba, Etiópia, em 1963, ela sacramentou
as fronteiras herdadas da colonização, abrindo assim
as portas a uma lógica inevitável que conduziria
às espantosas guerras civis de Biafra, na Nigéria,
de Eritréia, no leste da África, e de Ruanda e Burundi,
na zona dos grandes lagos, entre outras. No Pacífico e
no Caribe, o processo se deu da mesma forma.
Como conseqüência de todo esse processo, o pan-africanismo
foi rapidamente confiscado por elites de estado, eurocêntricas
e emburguesadas, fosse para seus próprios propósitos
nacionais, fosse para servir de instrumento na competição
entre Estados. Essa oficialização do pan-africanismo
anunciava a sua degeneração como projeto de libertação
de povos; e mais uma vez, incansavelmente, a voz de Abdias do
Nascimento se levantaria para ratificá-lo.
As
conferências pan-africanas de Kingston, Dar-es-Salaam, Lagos
e Dacar
Logo depois de se exilar, o primeiro encontro internacional de
que Abdias do Nascimento participou foi a Conferência Pan-Africana
Preparatória de Kingston, Jamaica, em 1973. Ele chegou
a Kingston por conta própria, viajando apenas com um visto
de residência americano e envolto numa crescente perseguição
pela ditadura militar brasileira, que já havia retirado
o seu passaporte. Ali ele definiu sua visão de um pan-africanismo
global, independente dos blocos ideológicos e includente
da mulher no pleno sentido da palavra. Em Kingston, ele teria
como principal adversário Marcus Garvey, Jr., o próprio
filho do fundador do pan-africanismo diaspórico-continentalista.
Mas também teria como aliada a ilustríssima Amy
Jacques Garvey, viúva de Marcus Garvey. Foi emocionante
ver essa senhora, aos 83 anos e somente quatro meses antes de
sua morte, concordar com Abdias do Nascimento, denunciar como
"aberrações" as posições
de seu filho e ratificar o caráter mundialista do pan-africanismo
definido por Marcus Garvey, assim como o novo papel que o gênero
feminino estava destinado a cumprir nas tarefas libertárias
desse movimento. O pleito surgiu quando Marcus Garvey, Jr. pediu
que fosse expulsa da conferência a representante da Ásia
e do Pacífico, Roberta Sykes, uma aborígene australiana,
sob o pretexto de que somente as populações negras
diretamente oriundas da África - com exceção
dos dravídios da Índia meridional e dos melanésios
do Pacífico - teriam direito a participar de reuniões
pan-africanas. Hoje em dia, coisas como essas até poderiam
parecer ridículas ou impossíveis, mas naquela ocasião
deram lugar a polêmicas dolorosas, desagregadoras e vergonhosas.
O pan-africanismo mundialista de Nascimento se expressou de novo
no 6º Congresso Pan-Africano, realizado em 1974 em Dar-es-Salaam,
Tanzânia. Dessa vez, chocou-se com as propostas da vertente
pró-comunista e marxista do chamado pan-africanismo de
Manchester (assim denominado porque o local de realização
do 5º Congresso Pan-Africano, em 1945, foi a cidade de Manchester
na Inglaterra), que envolvia nomes como Sekou Touré, Julius
Nyerere, Kwame Nkrumah, Agostinho Neto, Amílcar Cabral,
Oliver Tambo, Marcelino dos Santos, Angela Davis, Walter Rodney,
Maurice Bishop, René Depestre, Bernard Choard. Naquele
momento, esses grandes pensadores negros já tinham convertido
o pan-africanismo em correia de transmissão do comunismo
para os povos do Continente Africano e para os seus descendentes
na América do Norte, na América do Sul e no Caribe.
(O sangrento fim do regime marxista de Maurice Bishop e de Bernard
Choard, em Grenada, foi a mais grave indicação desse
fato.) Abdias do Nascimento se opusera de forma vigorosa a essa
marxização do movimento pan-africanista "de
Manchester" - mesmo essa tendência majoritária
sendo representada por chefes de Estado e prestigiosos dirigentes
de movimentos de libertação nacional - e proclamara
que o mundo africano deveria encontrar sua própria identidade
ideológica, baseada na experiência histórica
dos povos africanos do continente, assim como na experiência
das suas diásporas das Américas, do Caribe e do
Pacífico.
Essa mesma ótica orientou novamente a atuação
de Abdias, agora no seio de um foro pan-africanista da Négritude,
reunido em 1977 no Festival Mundial das Artes e Culturas Negras
e Africanas, em Lagos, Nigéria. No Colóquio, locus
de debates intelectuais e políticos do Festival, Nascimento
se opôs à proposta da Nigéria e seus aliados,
entre eles a ditadura militar do Brasil, os países da Liga
Árabe e Cuba. Em sua essência, o posicionamento desse
bloco de países significava a destruição
do pan-africanismo ao colocá-lo sob a tutela de um movimento
árabe-africano pretensamente ecumênico do qual estaria
ausente por completo toda colocação sócio-racial.
Abdias apoiou a posição do Presidente Léopold
Sédar Senghor, um dos fundadores do pan-africanismo da
Négritude, segundo a qual o problema da identidade cultural
e racial específica constitui uma reivindicação
fundamental do movimento dos povos historicamente submetidos à
alienação racial e à escravatura. Cumpre
ressaltar aqui que Nascimento expressou essas posições
na própria Nigéria, colocando em risco sua segurança
pessoal, pois vários Estados africanos, principalmente
a ditadura nigeriana do General Yakubu Gowon e, depois, do General
Olusegun Obasanjo, já tinham entrado em acordo com a junta
ditatorial do Brasil a fim de excluí-lo de qualquer encontro
internacional em solo africano.
Aliado às posições do Presidente Léopold
Sédar Senghor em Lagos, Nascimento antes se opusera a ele
em seu próprio país, o Senegal. Durante o Colóquio
Internacional de Intelectuais Negros, realizado em 1976, denunciara
o desvio "assimilacionista" da "Négritude
senghoriana". Em Dacar, ele havia defendido as propostas
de Aimé Césaire e Cheikh Anta Diop pela estruturação
política de uma Négritude funcional, atenta às
verdadeiras necessidades dos povos e inimiga da exploração
sócio-econômica. Também pugnara pela obrigatoriedade
da defesa da soberania nacional e da solidariedade com as lutas
de todos os povos do mundo que também sofriam com a exploração
e com o racismo, tais como os povos indígenas das Américas.
Os
Congressos de Cultura Negra das Américas e a cúpula
de Miami sobre a Négritude
Da Nigéria, Nascimento seguiu diretamente à Colômbia,
para participar do 1º Congresso de Cultura Negra das Américas
a convite do antropólogo e romancista Manuel Zapata Olivella.
Ele defendeu naquele certame a mesma linha de posicionamento pan-africanista.
Denunciou a política externa do Brasil no processo de descolonização
da África e na manipulação da imagem de "paraíso
racial" na condução de uma aproximação
econômica de cunho capitalista e neo-imperialista cujo beneficiário
exclusivo seria a elite dominante no Brasil. Em 1980, teve participação
destacada no 2º Congresso de Cultura Negra das Américas,
realizado no Panamá sob a coordenação do
poeta e sociólogo Gerardo Maloney. Eleito vice-presidente
do Congresso, ficou encarregado da realização, no
Brasil, do 3º Congresso. Ao voltar a seu país em 1981,
no momento da abertura política, organizou o 3º Congresso
de Cultura Negra das Américas, realizado nas dependências
da PUC, São Paulo, em agosto de 1982.
No âmbito de sua atuação política e
intelectual, em particular no contexto desses três Congressos,
Nascimento desenvolvia e expunha suas idéias sobre a natureza
do modelo latino-americano de relações sócio-raciais.
Esses três Congressos constituíram os primeiros eventos
desse tipo na América Latina e ficarão na história
dos povos dessa região como momentos marcantes em que o
movimento pan-africano, com suas três vertentes agora reconciliadas,
fincou novas raízes neste hemisfério. Em parte como
conseqüência disso, em 1987 se realizou em Miami uma
Conferência sobre a Négritude, a Cultura e a Etnicidade
nas Américas. Nessa Conferência, Nascimento se posicionou
realçando que as soluções dos problemas dos
povos africanos, no continente como nas suas diásporas,
encontravam-se enterradas no seio de seu próprio mundo.
A singular experiência histórica dos povos afrodescendentes
no Continente e na diáspora, afirmava ele, jamais poderá
ser desvalorizada, pois ela imprimiu uma textura particular às
lutas de reivindicação dos povos negros. Ao mesmo
tempo, essa experiência exige uma leitura social particular,
identificando no racismo a fonte de múltiplas formas de
opressão e no referencial da identidade cultural e racial
específica a dinâmica libertária dos povos
atingidos pelo racismo.
O papel dos intelectuais africanos e afrodescendentes, disse Abdias
àquela platéia, era contribuir na busca de caminhos
nunca percorridos a fim de reinventar a sociedade. Dois anos após
essa fala se produziu a assombrosa queda do bloco comunista-marxista,
provocando o início de uma séria reavaliação
política e ideológica do movimento pan-africanista
como um todo, tarefa ainda mais urgente diante dos graves problemas
econômicos, das terríveis guerras intestinas, das
desagregadoras lutas pelo poder, sem falar das epidemias gigantescas,
que fustigam o Continente Africano, assim como as suas diásporas
nas Américas, no Caribe e no Pacífico.
O
"nascimentismo": um pan-africanismo global de transição
Ao sair do seu país para o exílio, em 1968, Nascimento
penetrou diretamente numa situação mundial marcada
por fortes correntes políticas, no nível dos Estados,
que ele teve de assumir ou rejeitar quase de imediato. Em primeiro
lugar, o mundo estava dividido entre dois blocos, comunista e
capitalista. Ele não se alinhou com nenhum deles. No seio
do pan-africanismo, ele foi igualmente obrigado a operar uma seleção
imediata entre as três grandes vertentes históricas
desse movimento, assim como entre as diversas correntes que se
agitavam no interior de cada uma delas.
No momento em que Nascimento começou a atuar na arena internacional,
o pan-africanismo era uma força desgastada e em plena bancarrota
como expressão dos anseios dos povos negros em geral. Ora
absorvido pela poderosa dinâmica do movimento comunista
internacional (maoísmo, castrismo, leninismo, stalinismo,
trotsquismo...); ora desacreditado pelas próprias práticas
das elites negras que assumiram o comando de Estados soberanos
na África, no Caribe e no Pacífico nas décadas
dos 1960 e 1970; ora pervertido pelos sectarismos e extremismos
de membros de sua faixa "nacionalista" - o pan-africanismo
como tal encontrava-se num processo de decadência intelectual
justo no momento em que mais as lutas dos povos afrodescendentes
dele precisavam como instrumento de combate. Mas a preocupação
maior naquele momento tinha-se voltado à redefinição
de uma linha de conduta política e cultural capaz de sustentar
as lutas específicas dos povos e comunidades afrodescendentes
de todo o mundo. O ambiente internacional, marcado pela bipolarização
ideológica e estratégica entre blocos, e pela crescente
distância entre as possibilidades econômicas e tecnológicas
do Norte em relação ao Sul, tinha se tornado demasiado
complexo para as idéias programáticas já
obsoletizadas do velho pan-africanismo de início do século.
A primeira contribuição de Abdias do Nascimento
a esse propósito de renovação ideológica
foi a introdução da experiência diferenciada
dos povos afrodescendentes da América Latina no grande
debate sobre a composição de uma nova sociedade.
Assim, a discussão da questão racial ganhou nova
dimensão intelectual e teórica com as teses "nascimentistas"
sobre o modelo sócio-racial ibero-latino.
No fim das contas, qual teria sido a relação de
Nascimento com as três vertentes do pan-africanismo mundial?
Sem dúvida, ele tinha afinidades marcadas com o pan-africanismo
"diaspórico-continentalista" (Marcus Garvey,
Malcolm X, Maulana Ron Karenga, Elijah Muhammed, Patrice Lumumba),
e se identificou de imediato com essa vertente. Mas também
combateu com vigor os extremismos e sectarismos que a minavam.
Como homem de letras e artista, Nascimento se identificou de maneira
natural e espontânea com o pan-africanismo político-cultural
da Négritude. Essa vertente baseava-se na noção
de uma identidade africana específica de cunho racial e
cultural globalista e na proposta de uma independência nacional
sustentada num amplo e permanente processo de desalienação
psíquico-cultural (Aimé Césaire, Léon
Damas, Léopold Sédar Senghor, Cheikh Anta Diop,
Frantz Fanon, Alioune Diop). Ele discordava das tendências
assimilacionistas da corrente "senghoriana", que combateu
sem hesitações como perigosa aberração.
Mais complexas foram as relações de Nascimento com
o chamado pan-africanismo de Manchester, aquele que surgiu ao
começo do século XX com a realização,
em Londres, da Primeira Conferência Pan-Africana, organizada
por Sylvester Williams, advogado de Trinidad, e W. E. B. Du Bois,
cientista político, sociólogo e historiador negro
norte-americano. O pan-africanismo de Manchester (Sylvester Williams,
W. E. B. Du Bois, George Padmore, Caseley Hayford, Nnamdi Azikwe,
Jomo Kenyatta, C. L. R. James, Eric Williams, Ras Makonnen) se
definiu desde o início como "continentalista",
o que era lógico em razão da pavorosa exploração
e dominação colonial em que a África se encontrava
submersa. Entretanto, com a independência dos países
africanos e a sua consolidação, a "subordinação
estratégica" das lutas das diásporas africanas
das Américas, do Caribe e do Pacífico à luta
pela independência começou a perder seu caráter
de exigência estratégica. Abdias do Nascimento impugnou
de imediato a noção de que as diásporas teriam
de desempenhar um papel secundário, logístico, como
ocorria com os judeus do mundo em relação a Israel.
Ele colocou as diásporas das Américas, do Caribe
e do Pacífico no mesmo nível de urgência estratégica
dos povos do continente.
Um dilema para Nascimento, na sua ação internacional,
foi a questão dos métodos a utilizar na luta pela
liberdade dos povos negros. Luta armada "por todos os meios
necessários" (Kwame Nkrumah, Malcolm X, Amílcar
Cabral, Frantz Fanon)? Ou via pacífica, mediante sucessivas
etapas de negociação (Martin Luther King, Léopold
Sédar Senghor, Desmond Tutu, Albert Luthuli)? Homem pacífico
por natureza, Nascimento sempre teve uma predileção
pela negociação. Apaixonado na denúncia da
opressão, sempre foi moderado no confronto fraternal das
idéias; a luta violenta nunca foi o caminho predileto de
seu coração. Na hora em que o "guerrilheirismo"
gozava de grande audiência, ele enxergou no emprego do terrorismo
como arma de combate o perigo da escalada do terror. Mas, diante
da crueldade racista das potências colonizadoras, como nas
colônias portuguesas, e sob os implacáveis regimes
de apartheid na África do Sul, na Namíbia e no Zimbabwe,
apoiou a luta armada nesses países. Paralelamente, e bem
antes de se produzirem os horrores que o mundo hoje testemunha,
Nascimento denunciava o crescente perigo de guerra civil que detectava
na prática de muitos dirigentes da África independente
de impor aos povos sob seu controle as estruturas e sistemas de
repressão física legados pela dominação
colonial.
Sobre a política em geral, deve-se dizer que era necessário
ter muita coragem e convicção moral para se opor,
como Nascimento o fez sem trégua, a uma ideologia política
muito popular no mundo africano naquele momento, cuja perda de
prestígio no espaço de menos de uma década,
após a queda do bloco soviético, ninguém
poderia então prever. Mais especificamente, sobre a questão
sócio-racial, Nascimento esclareceu muito do que até
então ficava duvidoso para a maioria dos pan-africanistas
em relação à natureza orgânica e estrutural
do racismo latino-americano. Foram os seus escritos e denúncias
que mais contribuíram para avançar a premissa teórica
de que na América Latina se formou um sistema de dominação
étnico-racial e sócio-econômico específico,
baseado precisamente na "mestiçagem programada"
entre raças e etnias situadas em posições
fixas de inferioridade e de superioridade. Sua exposição
dessa tese, em O genocídio do negro brasileiro, figurará
na historiografia dos povos afrodescendentes como obra seminal,
não obstante as críticas formais que poderão,
ou deverão ser formuladas sobre certos aspectos de sua
obra.
A
reintrodução do mundo simbólico na política
pan-africanista
No plano internacional, Abdias do Nascimento desempenhou um importante
papel de conciliação entre as três grandes
vertentes do pan-africanismo. Hoje, não tenho dúvida
de que isso só foi possível porque ele mesmo portava
em si próprio, de maneira harmônica, essas três
vertentes políticas. Homem do século XX, na virada
do século XXI ele já era o esboço de um pan-africanismo
futuro; um amplo movimento político baseado no respeito
às diferenças entre povos, culturas, civilizações
e gêneros. Um movimento cultural em que o gênero feminino,
enfim resgatado de séculos de opróbrio, encontra-se
de novo em posição pioneira da civilização
e da humanização das sociedades, papel que sempre
desempenhou na história do mundo africano. Um pan-africanismo
em que a busca pela eqüidade sócio-econômica
entre raças, etnias e gêneros está indissociavelmente
ligada ao desenvolvimento identitário de cada um desses
agregados orgânicos da sociedade civil contemporânea.
Eu não acredito ter "forçado" o pensamento
de Abdias do Nascimento nesta descrição de seu pan-africanismo,
nem penso ter imposto meus próprios sonhos aos dele. Sem
dúvida, uma idéia fiel e abrangente das contribuições
"nascimentistas" às três vertentes pan-africanistas
que surgiram no século XX será objeto de estudos
posteriores. Mas acredito que, em sua ação internacional,
ele reintroduz no pan-africanismo militante do século passado
uma noção fundamental que estava se perdendo no
próprio fogo daquelas lutas: a idéia de que um futuro
político libertário deve ser, também, construído
artisticamente, na harmonia pessoal, na alegria, na amizade e
no carinho. Ou seja, paixão na denúncia das opressões,
mas respeito às múltiplas diferenças. O pan-africanismo
"nascimentista" compromete a ira contra todos os tipos
de injustiça, ainda que cometidos por nós mesmos,
com a música, a dança, a pintura, a poesia e o riso.
Acredito que, além das múltiplas contribuições
políticas que ele fez ao mundo em que viveu, e que sem
dúvida outros analistas conseguirão analisar e expor
com o devido rigor, Abdias do Nascimento introduz uma grande dose
de amor no pan-africanismo do século vinte.
Salvador,
agosto de 2000
Carlos Moore
Prefácio
do livro O Brasil na Mira do Pan-Africanismo (Salvador: CEAO/
EDUFBA, 2002), págs. 17-32.